Sobre a Independência de Ruanda e o Dia da Liberação.

Existem diferenças entre os dois dias? O que significam? Eu também tive que pesquisar para entender os feriados ruandeses.

No dia 1º de julho de 1962 Ruanda-Urundi conquistava sua independência e separação, tornando-se os atuais Estados de Ruanda e Burundi. Em especial, em Ruanda, depois da Revolução de 1959, a qual os hutus reivindicaram seus poderes em relação aos tutsis, contribuiu para o apoio dos belgas aos hutus e a passagem do poder para estes. Este é o dia considerado como “Independência de Ruanda”.

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Bandeira de Ruanda – Foto: Office Holidays

Foi uma passagem pacífica? Do colonizador para o colonizado, sim. Basicamente é vista uma transferência de poder político, porque o poder econômico continuava nas mãos da metrópole, em uma política neocolonialista. Corroborando com este fato, estava lendo uma reportagem em que se questionava se Ruanda tornou-se independente em 1962, especialmente pela aliança dos belgas (colonizadores) com o PARMEHURU (Republican Democratic Movement), os quais detinham uma ideologia de superioridade hutu em relação aos tutsis.

Do ponto de vista local? Foi uma passagem sangrenta, muitas pessoas morreram em um começo de limpeza étnica prenunciando a guerra civil de 1994, além de muitas que fugiram do país. Inclusive, a fuga dos tutsis corroborou para a criação da Frente Patriótica Ruandesa (FPR), que começaria sua entrada em Ruanda em 1990.

Bom, ok Camila, já entendi quando foi a Independência de Ruanda. E então, o que seria o Dia da Liberação? Esse dia foi justamente quando a FPR vence a guerra civil contra o governo ruandês, depois de 100 dias de massacre, em 1994. Em Ruanda, é considerado mais importante o Dia da Liberação (04/07) do que o dia da Independência (01/07) – a qual não é comemorada -, ambos fazendo parte do calendário nacional.

E você, o que acha sobre a comemoração ou não da Independência em Ruanda, tem sentido? Me conta mais!

Go Rwanda, MyRuanda!

Sobre se sentir perdid@ na quarentena

Será que todo mundo está perdido como eu nessa quarentena? ~
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Sempre penso em possíveis posts para o MyRuanda, especialmente agora que estou trabalhando tanto com negritude, feminismo negro e afins. Nossa, fiz um curso sobre Filosofia Africana! Amanhã vou começar um curso sobre África na Política internacional, uaaau! Tudo que eu quero!
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Tudo que eu quero? Não sei. Essa quarentena me fez ver que muitas das coisas eu não posso controlar, inclusive os percursos da minha carreira. Me senti desanimada, desestimulada, sem cor. Como continuar estudando sem algo que me motiva? Qual é a verdadeira razão para estar fazendo tudo isso?
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Continuo (ainda) sem uma resposta concreta. Mas isso não me desmotivou a conversar com meus pares acadêmicos, me aprofundar mais sobre o pensamento feminista negro (vai ter muito post por aqui sobre isso) e (tentar) conversar sobre a saúde mental na academia. Isso é muito importante, gente.
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Eu amo postagens das pessoas sobre produções na pandemia, mas eu também vou postar sobre o outro lado da moeda porque é importante.

Sun - My Ruanda

[Black Lives Matter] Sobre ter um posicionamento político nas Relações Internacionais

Com tudo o que está acontecendo no mundo, é muito cômodo não se posicionar politicamente.

Sim, isso mesmo que você leu. Estamos em um momento da vida que sim, precisamos nos posicionar. Escolhemos o curso de Relações Internacionais para entender o mundo, fazer a diferença nele, dentre outros aspectos que varia de pessoa a pessoa. Mas eu imagino que muitas das pessoas vão pelo caminho de pensar em um mundo ideal e fazer algo por ele.

Precisamos fazer algo por ele, e isso quer dizer também se posicionar. Se posicionar ao que está acontecendo, não somente buscando usar Teoria das Relações Internacionais para ter a ótica dos acontecimentos; precisamos ter uma consciência política do mundo o qual vivemos, seja pelos nosso privilégios, seja pelos lugares que alcançamos com a nossa voz, com o nosso status social.

Você pode vir me dizer “todas as vidas importam”, mas você, estudante, formado, professor de Relações Internacionais precisa pensar mais além disso. Sim, precisa perceber que a sociedade é composta por conceitos, estereótipos socialmente construídos, e eles vão além da questão de ser “vidas humanas”: eles rotulam pela cor de pele, classe social, gênero. E não dá mais pra você ver a vida por esse prisma simplista, é preciso vê-la a partir de uma interseccionalidade.

There's no room for hate and discrimination

Então não, não aceito você vir dizendo aqui que todas as vidas importam, sem se dar conta que um dos maiores alvos da violência policial é a população negra. Não, eu não aceito que você venha dizer que um negro, se tentar se esforçar, consegue as mesmas oportunidades que um branco. Não, EU NÃO ACEITO você dizer que “não é racista”, mas na hora de ‘consertar’ um amigo que está falando m#%¨&, você não está disposto a fazer isso.

Já passou da hora de você se posicionar. E o MyRuanda não tolera nenhuma forma de racismo, homofobia, gordofobia, xenofobia e demais preconceitos, pre-concepções que você não está disposto a se desconstruir.

E tenho dito!

Sobre a dificuldade de tirar projetos do papel

E em um mar de sentimentos, você encontra ideias tão incríveis que dariam ótimos projetos. Mas como tirar da cabeça ou do papel?

Essa é uma grande pergunta, que eu ainda estou em processo de descobrir a resposta. Eu tenho muitas vontades, talvez algumas não se convertam projetos. Tenho alguns projetos, mas talvez eles não sejam executáveis no contexto que estamos vivendo por N motivos. De qualquer forma, é uma dificuldade tirar uma ideia da cabeça/papel! As vezes não temos tanta vontade assim (por justamente pensar que não é executável), por sei lá, insira a razão que vier na sua mente). E vem um mix de emoções, porque às vezes temos tudo e não temos nada.

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Qual método você usa para organizar suas ideias? |Photo by Startup Stock Photos from Pexels

Às vezes não temos pessoas pra executar isso. É, meus caros, nem tudo dá pra executar sozinho. Uma das coisas que me prende de executar projetos é justamente isso. Seria tão lindo encontrar alguém com quem compartilhar ideias, compartilhar experiências e poder colocar em prática sonhos juntos! Sempre me vem essa vontade, mas parece que ainda não encontrei pessoas que se interessem pelo o que eu estou fazendo/quero fazer ou simplesmente não estão a fim de desenvolver algum tipo de projeto. É complicado.

Não vou mentir que para tirar o My Ruanda do papel (2014), eu tive a ajuda do meu ex-namorado, ou seja, uma pessoa que via a vontade que eu tinha de criar algo, mas não tinha coragem de colocar em prática. Hoje eu já estou mais calejada, e eu sempre penso que não dá pra ficar parada se a vontade é tamanha, queima por dentro, me sinto viva. Viva, isso…isso que eu preciso. E é assim que eu me motivo para tentar as coisas, mesmo com toda a insegurança do mundo de dar errado, de não atingir minhas expectativas, de sei lá, não dar em nada.

Mas eu sigo mesmo assim. Como eu segui com o My Ruanda mesmo aos trancos e barrancos nesses 5 anos. E hoje eu olho pra esse espacinho aqui e tenho o maior orgulho. E espero inspirar pessoas e ser inspirada nesse processo de autoconhecimento, construção de carreira e projetos, que é o My Ruanda Colab. E é isso, quem quiser vir junto comigo, vou ser extremamente feliz, senão, sigo o meu caminho com toda a felicidade do mundo de estar fazendo o que eu gosto: construindo pontes.

Go Rwanda, My Ruanda!

[Live Instagram] Sobre falar com uma ruandesa no Brasil

E nesses encontros e reencontros da vida, eis que encontramos uma ruandesa vivendo no Brasil!

Axana Uwimana
Axana Uwimana | Foto: acervo pessoal

A nossa entrevistada se chama Axana Uwimana, 26 anos, formada em Serviço Social pela Universidade Católica Dom Bosco (MS) e atualmente mora em Campo Grande.  Gosta de bastante cultura, de arte, música, teatro e dança populares.

Como vocês vão ouvir no vídeo, a Axana é nascida em Ruanda, mas não teve contato com a guerra. Suas palavras transmitem a sobrevivência de sua família e como ele se adaptam no contexto brasileiro. Então, o intuito da entrevista é justamente saber um pouquinho mais da história dela, como se inseriu na sociedade brasileira, curiosidades da ida para Ruanda e seus sentimentos em relação à Brasil e África.

Tenho que confessar que pra mim foi um encontro virtual lindo, porque ela tem uma energia incrível e super aberta para conversar de qualquer tema com as pessoas. Realmente eu fico feliz de ter concretizado essa entrevista com ela e de poder compartilhar com vocês em primeira mão!

Para quem não teve a oportunidade de assistir ao vivo a entrevista concedida pela Axana Uwimana no Instagram do My Ruanda, gravamos o áudio/vídeo da nossa conversa e disponibilizamos por aqui.

Obs: A partir do minuto 3:08 que temos áudio, desculpa pela falha técnica!

Se alguém quer fazer alguma pergunta para ela, deixa nos comentários que a gente te retorna!

Go Rwanda, My Ruanda! ❤

[Confissão] Sobre ansiedade e a arte do Coronavírus de mudar todos os planos

Quando toda a vida está planejada e o Coronavírus chega, a gente percebe que a gente não controla mesmo é nada.

Preciso escrever meus capítulos, preciso fazer minha pesquisa de campo em Ruanda. Foi quando a ansiedade começou a intensificar. Eu já estava em um confinamento técnico quando meus amigos foram embora de um mês de fevereiro maravilhoso e que eu sabia e entrei em uma imersão profunda a escrever meus capítulos da tese. Estava atrasada.

Ficava mais tempo dentro de casa do que fora para adiantar o que dava adiantar antes de fazer a pesquisa de campo, estava tentando me animar porque é meu último ano de doutorado. Último. Não dá pra brincar agora, realmente preciso escrever essa pemba. Só que de umas semanas para agora o contexto externo mudou. O que eram a princípio suspeitas passaram a ser casos, o que eram casos, passaram a ser mortes. O pânico se instalou. Eu entrei em pânico.

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Quando isso vai acabar? | Photo by cottonbro from Pexels

Ficar isolada para alguém que tem ansiedade não é nada fácil, imagina para alguém que tem ansiedade e ainda tem prazos. Imagina para alguém que não estava tão mentira, não estava MESMO motivada a voltar para sua cidade natal e ficar em confinamento. Crises de ansiedade a noite, volto a estudar pela manhã. Crises de ansiedade a noite, volto a estudar pela manhã. Tenho a ideia do My Ruanda Colab, tenho um pouquinho de esperança de conhecer novas pessoas e nos ajudar mutuamente, volto a estudar de manhã.

Já li inúmeros posts sobre o que fazer na quarentena, muitas das coisas eu não me animo em fazer. Tenho estudar, não consigo me concentrar; tento ler livros interessantes, fora do meio acadêmico, não consigo me concentrar. Sigo com minha terapia, que bom! Tento ver séries, não consigo parar; tento ver os materiais do My Ruanda Colab, aí eu consigo me concentrar um cadinho. Comecei a fazer Yoga online, aí eu me animei um pouquinho (Canal da Pri Leite, dá uma conferida). E tenho seguido nessa rotina diária, alternando um pouco das coisas.

Eu agradeço imensamente por não estar sozinha fisicamente e online, porque eu acredito que seria ainda pior lidar com essa situação. E gente, não está sendo nada fácil para ninguém, isso eu tenho certeza.  Mas é isso, a esperança de que tudo isso vai passar é a que fica. E eu vou fazendo o melhor que eu posso para lidar com a situação e tentando ser gentil comigo mesma, não exigindo a produção tão esperada como é na academia.

E me ofereço para estar caminhando com vocês, seja pelo My Ruanda Colab ou por conversas no privado, ou com qualquer coisa que seja.