Confissão: sobre o processo de se perder para se achar.

I had to lost myself to find myself again ~

E foi assim que eu finalmente entendi aquilo que move meus dias, mesmo nos altos e baixos da vida.

Depois que eu voltei de Ruanda, em 2015, nada foi a mesma coisa.

Eu me deparei com o “e agora?”, com o “ok, agora que eu consegui alcançar o meu tão esperado sonho, o que eu vou fazer agora?”. Minha dissertação não andava como eu queria. Aliás, o mestrado, desde quando começou, não andou como eu queria. Infelizmente não tive controle sobre algumas coisas (sim, eu sou uma pessoa que tende a ser controladora e, admito…o mestrado passou de uma forma tão avassaladora que eu não consegui gerenciar da melhor forma – ou eu gerenciei da melhor forma que eu pude no momento).

14719676_1817813081837212_4262980965149704192_n
Diploma do Mestrado (Outubro, 2016)

Não estava nem um pouco motivada a entregar o trabalho. Foi tudo tão corrido, não tinha as técnicas e não aprendi na época necessárias para fazer uma boa análise, enfim, não saiu do jeito que eu queria e o mestrado foi uma coisa e época traumatizante. Traumatizante. Estava com nojo da academia e tudo que implicava a ela. 2016 foi um ano decepcionante, foi um ano que eu me perdi. Me perdi por completo depois de eu ter finalmente chegado ao ápice de todas as minhas metas, meus desejos.

Me sentia tão agradecida a todas as pessoas que passaram pelo meu caminho entre 2014 e 2016, as energias boas que elas emanaram, as contribuições financeiras, emocionais e de tempo para compartilhar um pouquinho de carinho, de sorrisos, de abraços comigo. Mas nem isso me ajudou a sair da armadilha da desmotivação, da crença de que se é uma merda, de não conseguir ver uma luz no fim do túnel.

Voltei para Salvador, fiquei alguns meses sem trabalhar e sem ter muita ideia do que fazer. Outubro surgiu a oportunidade de tentar um processo seletivo para Doutorado na UFRGS. Não tinha dinheiro. Não queria…depois do mestrado ter me dilacerado, não achava que era capaz de entrar na UFRGS, 1) por ser difícil, ser uma universidade “com nome”; 2) por eu ser merda, claro, como eu iria conseguir entrar?, 3) que porra eu iria fazer na academia de novo, o lugar que só e nisso estou sendo injusta infeliz? Não queria tentar, não tinha coragem de tentar.

Não sei qual foi o estalo que me deu e eu decidi fazer o processo seletivo. Por ser online a primeira fase, acho que me ajudou a decidir pelo menos gastar os R$ 250,00 da inscrição sem pensar muito em outros gastos. Minha tia pagou minha inscrição e ainda assim eu fiquei com receio de não passar, “imagina, 250 reais jogado fora…que vergonha”. (re)Fiz um projeto em dias, uma semana; juntei toda a minha documentação e me inscrevi, sem esperança. Pensei: “meu currículo não está bom, eu não tenho nenhum diferencial, meu projeto ficou uma….arght, droga!”. Eu não saberia lidar com uma decepção nessas ondas de perdas de mim mesma.

Passei na primeira fase. Meu Deus, e agora? Não tenho dinheiro, hauhauhauahuha. Como que eu vou para Porto Alegre fazer a prova? Compra a passagem no cartão, vê na semana quanto fica de dinheiro para levar, consegue hospedagem na casa da prima da guria, vai pra Porto Alegre. Nervoso, ah…que nervoso. Fazer prova de francês (???), inglês…entrar na sala e só ver eu de “escurinha” na sala. Nervoso, ah….que nervoso. A entrevista…por que eu deveria entrar na UFRGS? “Sério que você está me perguntando isso? Moço, é roubada eu entrar na UFRGS”, eu dizia mentalmente. Todas as formas de me autossabotar.

15251801_1049084405200256_4020556359375257600_n
Dia 1 – Processo Seletivo Doutorado UFRGS (Novembro – Dezembro, 2016)

Mas um ser teve que me dar uma facadinha na barriga para um lado de mim, um pouco adormecido após Ruanda, aparecer. – Como você vai fazer pesquisa de campo, se você não tiver bolsa e auxílio da universidade? Você não está respondendo isso. – Olha, eu fiz isso no mestrado. Fui para Ruanda, certo? Se Ruanda, que é mais longe, eu fui, por que eu não iria para a África do Sul, que é BEM mais acessível que Ruanda? (cara irônica, cara de ódio, cara de ‘vou te dar um soco, porra’). Perdi, meu Deus, fui muito arrogante, com certeza perdi!!

Voltei para a casa desanimada, com o coração na mão. “Por que eu respondi assim? Como eles vão selecionar? Que merda, que merda…” Ah, nervoso!!! Dia seguinte, em uma quinta-feira, saiu o resultado – inesperadamente. Ficamos sabendo por uma guria que parabenizava a outra guria por ter passado. E eu com meu coração na mão. Eu não quero ver…eu não vi o resultado, a guria viu. E vibrou. Que? Como? Não, não pode ser. Antes eram só ideias, conversas com minha amiga gaúcha Juliana me dizendo “nossa, a UFRGS seria ótima para você, já que você estuda África. Tenta lá”, e eu, mentalmente, me sabotando “não mesmo que eu vou tentar fazer lá”. Não vou entrar na UFRGS. 

17268205_650555285136083_7008089130336780288_n
Carteirinha da UFRGS (especialmente para comer no RU, hahahahha) (Março, 2017)

Março de 2017, começo o doutorado em Ciência Política na UFRGS. Sem bolsa, parti para um lugar desconhecido, com (quase) nenhum conhecido, descobri o que me esperava por lá. 2017 foi um ano que tateei, que tentei entender que raios eu estava fazendo lá. Sim, estava me “enfiando” nas coisas relacionadas à África, mas ainda sentia aquela sensaçãozinha de estar perdida, de dúvidas…será que escolher seguir em um doutorado foi a melhor escolha, considerando que estava dilacerada pelo mestrado? Dilacerada. 2017 foi um ano difícil, um ano que eu prefiro olhá-lo como um ano de crescimento, de descobrimento de partes de mim mesma que ainda não tinha olhado com um carinho, compreensão especial.

Março de 2018, começo da minha matéria de Seminário de Tese. Em quatro dias tinha que “bolar” um projeto que ainda não tinha a mínima ideia de qual seria, já que ainda continuava perdida, desestimulada, sei la. Ahhh, preciso acordar, preciso de algo. Preciso de algo, me dê algo para eu me achar! No primeiro semestre de 2018 aconteceram fatos importantes que foram me levando a me aprofundar mais no caminho da África. Meu projeto, a matéria Inserção da África no Sistema Internacional, o Seminário do Cebráfrica (Centro Brasileiro de Estudos Africanos).

O Seminário do Cebráfica, foi isso. É ISSO!!!! E U  M E  A C H E I. Entendi perfeitamente todo esse percurso de 2015 até agora para eu entender o que realmente me motiva, o que brilha meus olhos, o que faz meu coração bater mais forte: estudar África. Gente, tudo fez sentido quando eu apresentei meu pequeno rascunho de pesquisa, quando eu troquei ideias embrionárias do que eu pensava em fazer a partir de agora. Tudo fez sentido, e eu chorei por isso e ainda hoje, quando eu lembro, choro hahahaha.

IMG_20180614_155157_137
I Seminário do Cebráfrica (Maio, 2018)

Eu já tinha a certeza que, em algum momento, eu voltaria a visitar/ir para África. Mas agora está BEM mais claro que eu quero ir lá, quero pesquisar, quero trabalhar, quero morar. Eu quero ter uma plena experiência lá, não quero passar um mês. Um mês serviu para eu perceber, em quesitos pessoais, que eu estava certa em querer ir lá, especialmente em Ruanda (por simpatizar pela história, por ter adotado Ruanda como meu país de origem, mesmo sendo minimamente improvável que seja). Depois de ter me perdido por um tempo, não ter acreditado em mim e no meu objetivo de vida, carreira, enfim, eu me achei. Me achei e segurei com todas as garras esse sentimento de realizar o meu sonho de novo. Completo. Em longo prazo.

Eu estou de volta, e bem mais decidida que antes.  cropped-c3adndice.png

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s