“Eu não sei ainda o que é ser negra”: substratos de um convite 1

“Eu não sei ainda o que é ser negra” – foi uma frase que eu usei em uma conversa no WhatsApp.

Recebi um convite para participar de um bate-papo pós-filme na Mostra de Cinemas Africanos, no Capítulo, em Porto Alegre (RS – Brasil). Fiquei muito feliz, especialmente por ir falar sobre representatividade da mulher negra na academia (o tema geral é sobre “Representatividade feminina negra: desdobramentos entre África e Brasil”).

Mostra de Cinemas Africanos

Sempre conversei com meus amigos e afins sobre a questão da representatividade na academia. Algumas vezes isso me incomoda profundamente a ponto de me deixar sem graça e sem jeito em algumas situações, por ser “a diferentona”; outras vezes eu sinto ainda o incômodo, mas ajo como a pessoa representando por outras pessoas – aquele papel que eu gostaria que alguém tivesse feito por mim (que responsa, ein Camila? Rs! Brincadeiras a parte, SIM, é uma responsa e que pode nos deixar doentes por exigir tanto de nós, por sermos diferentonas sempre, por isso que é bom sempre refletirmos sobre o nosso papel em ocupar espaços e estarmos conscientes disso).

Mas um medo bateu em relação a minha participação. E se eu só contar minha experiência e não ser suficiente? E se eu não souber questões acadêmicas sobre negritude, sobre lugar de fala, feminismo negro (Djamila Ribeiro, Angela Davies) e outras questões que estão sendo discutidas e eu vivo bitolada no meu mundo acadêmico do outro lado de cá? E se eu não sei ainda o que é ser negra?

Essa pergunta, depois que eu falei ‘alto’ ou seja, enviei a mensagem ficou latejando na minha cabeça. E eu decidi ler mais sobre questões que me tocam, porque eu faço desse recorte social, mas não me envolvo. Fazendo uma digressão, percebi que não me envolvo em questões de negritude quando estava conversando na quinta-feira (06/12/2018) com Emílio, um moço que me viu com uma camisa africana (que ganhei do Lusitâneo, de Moçambique).

Ele estava me falando de alguns eventos que iam acontecer em Porto Alegre nessa temática e eu voando para o que ele estava me dizendo. Ele me perguntou: você atua em algum coletivo, grupo de pesquisa, etc (dentro dessa temática)? E eu olhei bem vidrada para ele, refletindo sobre aquela pergunta que ele fez, e respondi que não. De fato não participo. Tenho consciência das coisas que acontecem no nosso mundo porque eu também passo por isso, mas por alguns (pequenos) privilégios que ainda tenho com certeza as coisas que eu passo são diferentes do que outras pessoas negras passam. E eu me senti estranha, porque eu já tinha consciência que eu não me envolvia, mas isso ficou estampado na minha cara e mente. E me incomodou.

E desde lá eu comecei a pensar em alguma forma de me envolver mais nesse mundo, o qual eu faço parte, mas não entrei de cabeça nele. E desde que tive o insight de querer trabalhar com educação isso é para um próximo post que tenho a vontade de buscar mais conhecimento sobre outras temáticas além da minha e me envolver mesmo com ações presenciais e afins. Pensando nisso, para a minha participação do dia 11/12 no evento, comecei a ler livros e artigos pertinentes à temática. E sabe o que aconteceu?

Tô amando. To realmente amando expandir minha percepção ao lado de outras mulheres negras (atualmente estou lendo O que é lugar de fala?, da Djamila Ribeiro) e saber que, de fato, não estou sozinha nessa luta. Ainda me encantou mais que, como pesquisadora negra, vou estar representando o meu trabalho, ou seja, de pesquisadora negra que estuda África. E escolhi estudar África de coração, foi um chamado. E estou diminuindo meu medo, por meio da leitura, de participar deste evento maravilhoso que só vai me fazer crescer mais ainda!

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