Sobre a importância do Documentário “What Happened, Miss Simone?” nos dias atuais

Encontrei a epígrafe da minha tese, acredito. Foi como um choque na hora, porque já tinha escutado a música. Mas acredito que as consciências acontecem em seu tempo.

E pois bem, demorei para assistir o documentário sobre Nina Simone – inclusive estou escutando ela para me inspirar a escrever. Aliás, primeira pergunta: você conhece Nina Simone? Senão, corre pro Google para conhecer não só sua biografia, mas suas músicas – também não só as melodias, mas as letras. Que potência, que mulher! Lembro que a primeira vez que ouvi falar dela foi pelo meu namorado da época – branco, diga-se de passagem, mas que gostava de boa música – e eu fiquei meio “ãn, ok”, mas me marcou o momento pela potência da sua história (ele contextualizou), mas não parei para me aprofundar.

What Happened, Miss Simone? | Site Oficial Netflix
Fonte: Netflix

A segunda vez foi a minha amiga de casa que me mostrou realmente quem era ela, falava dela com tanta efusão, com tanto contexto histórico que resolvi procurar. E, olha…o que era aquilo? Eu sabia que o movimento negro dos Estados Unidos era (não querendo comparar as realidades) muito forte em questão de participação e luta ativa contra a segregação, mas não sabia o tamanho papel que ela protagonizou naquela época com suas letras. E, ainda assim, eu estaria ainda na ponta do iceberg, só me dando conta da potência do que eram as músicas dela naquela época (e agora!) hoje!!

Que potência, que mulher! Eu assisti o documentário todo com um sorriso no rosto. Porque sim, mostra a história de um ser humano, que sofre, que tem fúria, que passa por dúvidas, que tem sonhos. Que tem depressão, que tem ambição, que luta por um mundo  melhor. Que luta por um mundo melhor a partir da sua posição. E sabe o que isso custa para a pessoa? Pra ela custou sua liberdade, muitos dos seus sonhos. Mas pra ela, do que adianta ser artista sem refletir a realidade?

Meu Deus, quando escutei isso, eu falei: É ISSO! Como adentrar na academia, estudar tanto, sem refletir a realidade em que vivemos? De violência policial, de racismo (estrutural, institucional, e assim vai); em um cenário sanitário em decadência, em que muitos da população estão com a consciência política destroçada, individualizada… como viver sem tentar transformar a realidade em que eu vivo, com a ferramenta que eu tenho: o conhecimento?

Assistir o documentário só me deixou mais feliz pelo caminho que estou trilhando, o de descolonização do pensamento; o de construção de um pensamento crítico de autovalorização do que temos de melhor: nossa ancestralidade. O que é “Ain’t got no – I got life”??? O que é isso, senão uma obra prima? É um hino para olharmos para o espelho e vermos a lindeza que somos, a potência que somos! Não tem explicações combinar essa música com as leituras do livro de Patrícia Hill Collins (Pensamento Feminista Negro). Inclusive, conheci outras cantoras de blues pelas referências desse livro. E percebi o universo de materiais (desde literatura, música, audiovisual) que posso  usar na minha tese, até porque são referências – por que não usá-las?

Enfim, nessa quarentena janelas estão se abrindo no meu cérebro. Como se eu estivesse, como Césaise (Discurso sobre Colonialismo) disse, dormitando por algum tempo para despertar a todo vapor. Quanta coisa eu tenho aprendido com esse despertar (explícito agora para os brancos, já que estamos falando há tempos sem sermos ouvidos) da nossa comunidade negra! Ciclos antirracistas, curso de filosofia africana, lendo sobre livros anticoloniais e com uma perspectiva de afrocentricidade, lendo Patrícia Hill Collins….só percebo mais e mais que me falta muita coisa pra ler!!

E isso (claro!) me motiva. Me motiva a querer fazer uma tese melhor, uma tese que reflita a comunidade africana e diaspórica. Que defenda uma perspectiva política que eu realmente acredito. Então estou tratando de ler um pouco de tudo para entender por onde estou caminhando e traçar uma estratégia teórica que melhor caracterize uma realidade crítica, não com as lentes europeizadas. Dá trabalho? Lógico que dá. Uma vez eu vi no Instagram um post que dizia “descolonizar é doloroso”, e eu concordei no exato momento.

Porque nessa quarentena eu passei por (inúmeros) estágios de crises existenciais, teóricas, whatevertentando entender o que/qual era o propósito da minha vida fazendo tudo o que estou fazendo. Mas enfim, isso fica para um próximo post, porque ainda tem muitas reflexões sobre as leituras, vídeos e conversas que estou tendo. Não fugindo do foco do post, ASSISTAM NINA SIMONE, É UMA ORDEM! (ainda disponível no Netflix!)

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