[Desabafo] Sobre professores abusivos e o sistema educacional

Estava tendo um debate em um grupo hoje e me deparo com uma publicação no Facebook exatamente sobre abusos sofridos por um estudante quando estava no mestrado.
 
É triste ver professores que abusam de um poder, de uma posição que deveria ser para educar, dialogar, criar pontes entre mundos, experiências, vivências. É muito triste que, ainda, pessoas passem por essa maquinaria e achem que isso é normal, reproduzindo os mesmos padrões.
 
Entendo que aqueles que sofreram querem alcançar o poder para descontar tudo o que sofreram, mas eu não entendo como reproduzir padrões em circunstâncias tão fundamentais para construções de pilares de conhecimento, de reprodução de perspectivas e de óticas sobre a vida.
 
Só quem sabe e quem já teve o psicológico, a autoestima destruída por esses seres percebe a tamanha gravidade que temos na participação na vida das pessoas. PARA O BEM E PARA O MAL.
 
Reflitam sobre isso. Não dá para reproduzir mais espaços de opressão intelectual, racial, sexual, corporal e qualquer outro tipo de categoria que podemos nos referir aqui. É necessário termos uma perspectiva interseccional sobre a vida e entender que vivemos em sociedade: HÁ MUITA COISA ALÉM DO NOSSO UMBIGO, DO NOSSO EGO.
 
Graças aos bons deuses não me lembro de ter compactuado com esse sistema doente de pressões psicológicas, humilhações e adjacências, disso eu tenho orgulho. O meu intuito de estar na academia é exatamente de compartilhar conhecimento, de conhecer e aprender com as pessoas.
 
APRENDER: posição que eu assumi exatamente nessa quarentena. Meu maior medo era apresentar e dizer “não sei te responder sobre isso”, ser taxada a burra do rolê (porque não passei em boas posições no Mestrado/Doutorado, o que inclusive eu tirei o mérito por ter acessado essas plataformas) ou algo do gênero. NÃO, eu não vou saber sobre tudo, eu não vou ler todos os livros sobre África ou sobre outras temáticas.
 
E QUE LINDO isso. Que lindo saber as “minhas limitações” como ser humano e que eu esteja aqui nessa vida para aprender, por que o que seria de mim sem isso? Hoje estou bem mais confiante do meu papel como educadora e como pesquisadora, independentemente do que as pessoas rotulem sobre mim.
 
Como Patrícia Hill Collins fala, em O Pensamento Feminista Negro, é preciso nos autodefinir para que nenhum desses seres da vida nos venha apontando o dedo querendo nos colocar em caixinhas sem saber da nossa história, dos nossos corres, da nossa ancestralidade. É preciso ser forte, consciente e nos mantermos firmes em relação a fazer diferente quando chegarmos nesses espaços. Não dá para perder nosso objetivo, não dá.
 
Eu cheguei até aqui para falar mesmo. Se antes eu não podia falar, por diversas razões de opressão do nosso sistema, cheguei até aqui para escancarar tudo mesmo. Não dá mais. Ou a gente descoloniza o pensamento ou a gente descoloniza o pensamento. Não dá mais pra ver gente sofrendo pelos NOSSOS ATOS, POR NOSSAS ESCOLHAS, PELO NOSSO SILÊNCIO.
 
Eu falo isso como mulher, negra, nordestina, acadêmica, pesquisadora, ser. Eu estou disposta a aprender para fazer diferente. Eu estou aqui para isso. E me lembrem, pelo amor dos deuses, se algum dia eu desviar desse caminho.
 
Camila Andrade – My Ruanda Brasil – 14/07/2020 – Via Facebook.

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