Sobre encontrar minha ancestralidade

2020 foi o ano que eu me (re)conectei com meus ancestrais de uma forma que até me faltam palavras para explicar. A minha ancestralidade me deu forças para lidar com esse ano difícil.

Grandes desafios: essa é a ponta do iceberg que caracteriza o ano de 2020. Ano que já começou difícil porque eu voltava de uma experiência (intercâmbio na Argentina) que eu não era mais a mesma, tampouco queria me adequar ao ambiente que eu deixei. Associado a isso, tinha a famosa tese para escrever – estava ainda perdida em relação ao que fazer com o meu capítulo teórico.

Fevereiro entrou e eu me organizei e coloquei as mãos a obra para escrever a tese; março também. Abril começou a vir um desânimo e eu fui sucumbindo a uma depressão que já vinha tomando espaço desde dezembro. Maio desânimo total. Também em maio começaram toda a movimentação do Black Lives Matter (a morte de Floyd) e aí eu comecei a minha trajetória em busca de um sentido para estar ainda vivendo.

Pensamento feminista negro - Boitempo Editorial

Comecei no grupo de leituras do livro Pensamento Feminista Negro, da Patrícia Hill Collins. Nele eu encontrei mulheres doutorandas, negras, incríveis e pude ter um espaço seguro para compartilhar experiências do racismo cotidiano. Não vou mentir que comecei a ler o livro e me deu muitos gatilhos, especialmente pelo contexto que estávamos vivendo de violência policial e de mortes de adolescentes negros.

Me senti despreparada, como que a cada capítulo estivesse levando socos no estômago. Apesar da dificuldade, todo encontro era uma renovação da esperança e do sentimento de não estar sozinha nessa luta. Não consegui terminar ainda o livro – sim, eu tive que parar um pouco para processar, ler outros livros e voltar – mas já está na lista de 2021 para ser finalizado.

Além do grupo de leitura, comecei a aprofundar mais nos meus estudos sobre filosofia africana. Fiz um curso de Introdução a Filosofia Africana que me tocou, especialmente pela questão do epistemicídio (morte do conhecimento) que é perpetuado em relação a saberes africanos, negros. Isso me deu tantos cliques que eu pude pensar sobre o meu capítulo um e me animar a fazer algo diferente do esperado. Autores como Mogobe Ramose e Renato Noguera foram apresentados e, com isso, eu tive acesso a outros pensadores por meio de uma plataforma chamada Filosofia Africana, a qual reúne texto de diversas temáticas de autores africanos.

Discurso Sobre o Colonialismo - 9788576620570 - Livros na Amazon Brasil

Participando do grupo de discussão sobre pós-colonialismo, tive contato com esse livro incrível do Aimé Cesáire, autor que foi um dos precussores do uso do termo Negritude. Nesse livro ele escancara a desumanidade instalada no colonialismo, além do questionamento da supremacia branca em relação à sociedade africana.

Não tem como deixar de ler esse livro! Passagens fortes, com muita ironia, além de pequenos socos no estômago para acordarmos e termos uma perspectiva crítica em relação à supremacia branca e o racismo estrutural que tanto combatemos no dia-a-dia.

Ainda no mesmo grupo, tivemos um encontro que iríamos discutir sobre alguns capítulos do Memórias da Plantação, da Grada Kilomba. Não tive como ficar apenas nos capítulos selecionados, segui a leitura. Era um livro que tinha vontade já de ler e algumas pessoas tinham indicado. E que livro! Caso vocês queiram saber mais sobre ele, já tem uma resenha aqui no My Ruanda! É um livro muito forte e necessário, com perspectivas cotidianas do racismo, ilustradas por entrevistas. Vale muito a pena!

POR UM FEMINISMO AFRO-LATINO-AMERICANO - - Grupo Companhia das Letras

Depois que o grupo de leitura da Patrícia Hill Collins terminou, decidimos levar adiante nossas leituras e escolhemos ler Primaveras Negras, de Lélia Gonzalez. Dela eu só tinha lido o artigo que fala sobre o conceito de Amefricanidade e já tinha gostado da forma como ela escreve: pé na porta. Descobrimos que esse livro foi relançado em 2020 sob o nome de Por um Feminismo Afrolatinoamericano, sendo que não comporta todos os artigos trazidos em Primaveras Negras. Ainda estou lendo, mas ele fez parte das minhas reflexões em 2020.

Que potência é Lélia. Desde quando me deparei com os escritos dela que eu fico me perguntando o porquê que eu não vi seus escritos em nenhum momento dos meus estudos em Relações Internacionais. Até nas minhas leituras, que também começaram em 2020, sobre Raça e Racismo nas Relações Internacionais, não incluíram nada sobre pensadoras brasileiras – mas isso me deu ideias e se concretização em artigos para o Diário das Nações.

A razão africana: Breve história do pensamento africano contemporâneo |  Amazon.com.br

Para finalizar, o livro A Razão Africana, de Muryatan Barbosa, me ajudou e muito a ter uma perspectiva histórica sobre o pensamento africano contemporâneo, passando desde o movimento da negritude a perspectivas do pan-africanismo. Gostei muito de lê-lo e a leitura me impactou em termos de reconexão com a ancestralidade, além do lado intelectual (pessoal e voltado para minha tese).

Diria que esse livro é um bom começo para quem quer entender como os movimentos, pensadores, perspectivas se entrelaçam ao longo da história. Se eu tivesse um livro parecido como esse no início do meu doutorado, muitas das minhas perguntas e pontos que estavam soltos seriam respondidos previamente, acelerando o processo da escrita do meu projeto e tese.

Depois deste longo post, eu espero que vocês escolham pelo menos uma dessas preciosidades para ler, de verdade. Eu digo que todos valem a pena, todos todos. Cada um traz uma temática, uma perspectiva, uma linguagem. Eu sou muito agradecida pela companhia dos meus ancestrais que me guiaram, por meio dos livros, nessa jornada tão difícil que foi o ano de 2020. Espero muito que o ano de 2021 seja de esperança e concretização de novas coisas e de coisas que ainda ficaram pendentes no ano anterior.

A todos, uma boa leitura!

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