[Carolina Condé] Por que estudar o Oriente Médio?

Beige Analog Compass
Photo by Ylanite Koppens from Pexels

A pergunta-título desse texto foi um pedido direto da Camila para que eu me posicionasse aqui sobre porque estudar esse pedaço do mundo que todo mundo se propõe a falar e, muitas vezes, fala várias porcarias. A começar de chamar a região de Oriente Médio. Você sabia que assim foi chamada por determinação britânica, logo depois da colonização da Índia, para marcar o ponto médio entre a ilha da Grã Bretanha e sua nova colônia? Pois é, antes disso a região era chamada de Oriente Próximo. Edward Said, em seu livro mais conhecido, Orientalismo, nos diz, logo na capa, que o Oriente (árabe, nesse caso) é uma construção do Ocidente. Oras, se ele é uma construção, significa que apenas algumas partes o formam, certo? A lógica é simples: assim como quando construímos uma casa escolhemos o que vai compô-la, quando escolhemos falar de alguma região do mundo, de alguma cultura, religião, povo, nós também escolhemos o que falar sobre eles. E é justamente por isso que o Oriente árabe deveria ser mais e, principalmente, melhor estudado. 

Assim como o continente africano foi colonizado, dividido e roubado pelas potências coloniais e imperiais europeias, a região que chamamos de Oriente Médio também foi. A diferença é que a incursão colonial europeia na região começa logo após a Primeira Guerra Mundial, em função da queda do Império Turco Otomano. Enquanto África foi dividida no Congresso de Viena, em 1815, o Sykes Picot, dividiu a região que antes era dominada pelo Império Otomano. Aqui é importante ressaltar que Sykes Picot foi assinado em 1916, ou seja, dois anos antes da guerra terminar, Inglaterra e França já haviam decidido sobre o destino da região. Além disso, em 1917, Balfour, então secretário britânico dos assuntos estrangeiros, publicou a famosa Declaração Balfour, que garantiu à comunidade judaica que a região da Palestina seria entregue a eles para que ali fosse fundado um Estado judeu. Sykes Picot não apenas dividiu o território do Oriente Próximo como também estabeleceu a ordem política, impondo monarquias e os grupos que dominariam a região pelos anos a se seguir. 

Quando olhamos para a história da região durante todo o século XX e XXI percebemos o quanto a imposição ocidental, primeiro europeia e depois estadunidense, na região, contribuíram para os desequilíbrios, conflitos e para a perpetuação de um sistema que oprime a maior parte da população em detrimento de benesses de alguns poucos. Parte desses alguns poucos são externos à região. Sempre bom relembrar que empresas ligadas ao setor de exploração do petróleo sempre tiveram muito interesse na região. O interesse supera a lógica empresarial de tal forma que na década de 1970, após o Primeiro Choque do Petróleo, o Oriente Próximo se tornou questão de segurança nacional nos EUA, a chamada Doutrina Carter. Durante a Guerra Fria, a região também foi local de conflito de interesses das duas potências da época. A invasão soviética ao Afeganistão, no longo prazo, deflagrou os atentados do 11/09 contra os EUA – atacados por aquele que um dia financiaram para combater os comunistas. Além disso, desde 1948 temos toda a questão e acirramento do conflito Israel – Palestina que, vou lhes dizes, NÃO TEM NADA A VER COM RELIGIÃO. O que tem a ver com religião é o que vivemos hoje, com a volta do antissemitismo e a acentuação da islamofobia.

Estudar o Oriente Médio ou Oriente Próximo, como queira chamar, é importante porque nos permite ir além da lógica imposta da compreensão da região. É dar uma chance para a história, mas a história daqueles que foram colonizados, roubados, enganados e marginalizados por um discurso que os perpetua como bárbaros, não a história do colonizador que se achava no direito de invadir. Estudar a história do Oriente é entender que parte do nosso conhecimento, que é perpetuado como ocidental, foi na verdade roubado e seus verdadeiros sábios silenciados. O sistema numérico que nós usamos é chamado arábico não a toa  e aquele esquisitão é chamado de Romano também não a toa. Assim, respondo a pergunta-título dizendo: devemos estudar o Oriente Médio e os locais que não compõem o Norte global porque só assim nós iremos entender a lógica das relações globais que nos foi, e continua sendo, imposta; porque assim nos será permitido decolonizar nosso saber e, apenas dessa forma, iremos ouvir as vozes daqueles que foram, e continuam sendo, silenciados.

Carolina Condé é bacharel em Relações Internacionais e Economia pela FACAMP, mestra em Relações Internacionais pela UFSC e, atualmente, está como graduanda em Pedagogia na UNICAMP. Há pouco tempo tem se aventurado mais a fundo nas discussões decoloniais e pós-coloniais. Teve como temas centrais da pesquisa no mestrado a islamofobia e sua implicação para a Palestina.

Sobre se sentir perdid@ na quarentena

Será que todo mundo está perdido como eu nessa quarentena? ~
.
Sempre penso em possíveis posts para o MyRuanda, especialmente agora que estou trabalhando tanto com negritude, feminismo negro e afins. Nossa, fiz um curso sobre Filosofia Africana! Amanhã vou começar um curso sobre África na Política internacional, uaaau! Tudo que eu quero!
.
Tudo que eu quero? Não sei. Essa quarentena me fez ver que muitas das coisas eu não posso controlar, inclusive os percursos da minha carreira. Me senti desanimada, desestimulada, sem cor. Como continuar estudando sem algo que me motiva? Qual é a verdadeira razão para estar fazendo tudo isso?
.
Continuo (ainda) sem uma resposta concreta. Mas isso não me desmotivou a conversar com meus pares acadêmicos, me aprofundar mais sobre o pensamento feminista negro (vai ter muito post por aqui sobre isso) e (tentar) conversar sobre a saúde mental na academia. Isso é muito importante, gente.
.
Eu amo postagens das pessoas sobre produções na pandemia, mas eu também vou postar sobre o outro lado da moeda porque é importante.

Sun - My Ruanda

[Internacionalista Negra] Programa de Mentoring

Olá, pessoal.

Hoje eu falar um pouquinho do Programa de Mentoring que eu vivenciei na Unijorge-Bahia. Foi muito interessante a primeira vez que eu organizei meus planos em um documento. A sensação de pensar em alternativas para minha carreira, mas ainda cética dizendo para mim mesma: isso não dá certo.

Anos depois eu peguei o mesmo documento e vi para onde a vida tinha me levado. Algumas coisas se concretizaram, outras tomaram outras formas…e atualizei meu plano, para que continuasse a ser meu norte. Muita coisa mudou, mas uma ainda continuava bem presente: a vontade de me vincular a Ruanda.

Veja como funciona o Programa de Mentoring:

E você, já pensou em sua carreira? Como você se organiza para isso?

Sobre o Congresso da ABRI e a primeira apresentação de trabalho sobre Ruanda

Caríssimos! Depois de algum tempo sem postar no nosso querido blog, cá estou eu para narrar um pouquinho sobre como foi o Congresso da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI), o qual aconteceu do dia 29 a 31 de junho, em Belo Horizonte.
O tema do evento esse ano foi “Redefinindo a diplomacia num mundo em transformação”. Não poderia ficar feliz com essa temática, afinal, o fenômeno da paradiplomacia encaixa-se perfeitamente como um elemento de discussão/debate. Dito e feito: o evento comportou painéis que tratavam da temática e traziam pessoas que produzem artigos/trabalhos na área.
Em relação ao meu artigo, Novos atores no cenário internacional: a paradiplomacia na África e o Estado de Mil colinas, o mesmo tinha como objetivo trazer aspectos sobre a paradiplomacia africana e como é desenvolvida a paradiplomacia em Ruanda, analisando as atividades da RALGA (Rwanda Association of Local Governments Authorities) a partir do ano de 2003 (o ano de sua criação). Como não há muitas produções na área da paradiplomacia africana, especialmente sobre Ruanda, o objetivo do trabalho era o de despertar o interesse da academia para o estudo/aprofundamento de outras regiões na temática paradiplomática.
Fiquei feliz pelo feedback no painel, o que contribuiu para algumas indagações e reflexões sobre o funcionamento da paradiplomacia em Ruanda. Essa interação com pessoas que trabalham e produzem na área faz com que as produções do My Ruanda (voltado para a academia) tenham mais consolidação e o projeto esteja seguindo no caminho certo para descobertas em solo ruandês, com a pesquisa de campo.
Lógico que o trabalho de refinar os artigos e a dissertação será árduo, mas seguimos em frente com o desafio!
Há alguns trechos do artigo publicados no Relações Internacionais. Caso alguém se interesse pela temática, dá uma olhada no texto Há Paradiplomacia na África?
Outro texto interessante é o Estudar sobre a África é possível?, que traz alguns aspectos gerais sobre o projeto My Ruanda Brasil.
Bem, depois desse brainstorming e das interações paradiplomáticas do evento, chegou a hora de dar uma corrida na dissertação. Me mandem energias positivas, rs!