[Cine África] O Enredo de Aristóteles

E a cada filme que eu vou assistindo do Cine África, me deparo sobre o meu desconhecimento do universo que é o cinema africano.

Pois bem, meus caros. Eis que começo o meu ritual de assistir o filme sem ter lido previamente a sinopse. Doce ilusão, porque com o Enredo de Aristóteles (1996) foi bem duro. Realmente começou o filme e eu estava me adaptando a entender o que estava acontecendo em um turbilhão de cenas, de formas irônicas, críticas e engraçadas.

Demorou um pouco para pegar no tranco com o filme e entender o que estava acontecendo. E nossa, que espetáculo. Não dá para assistir sem prestar atenção nas críticas feitas ao cinema norte americano que comanda o cinema dito ocidental. Todos aqueles “maravilhosos” xingamentos no início e ao longo do filme – em inglês, claro – já dizem qual seu papel no filme, tecendo críticas para representação tão conhecidas no cinema hollywoodiano: Bruce Willis, Schwazenegger, Nikita, etc.

Cena do filme O Enredo de Aristóteles (1996). Foto: Da Janela

Nesse contexto, Jean-Pierre Bekolo (Camarões) é convidado para fazer um documentário representando o continente africano. Curiosamente, O Enredo de Aristóteles vai questionar justamente essa visão estereotipada que reproduzem do africano e do próprio cinema desenvolvido no continente – o que dá um sentido fantástico ao filme.

No mesmo sentido que o filme da semana passada, Fronteiras, os cineastas percebem o seu papel político na produção do filme e como estes podem contribuir para uma visão do continente pelos africanos e externamente. Em O Enredo de Aristóteles, elementos como a posição que os brancos ocupam no filme, a cultura dos Estados Unidos influenciando o continente e a própria instrumentalização do uso do inglês são alguns aspectos brilhantes que proporciona uma narrativa sui generis ao filme.

Na entrevista disponibilizada na Plataforma do Sesc Digital é possível entender melhor os anseios do cineasta Jean-Pierre Bekolo em que, 24 anos depois do filme lançado, apresenta ainda questões relevantes aos dias atuais. Enfim, não vou falar mais sobre o filme senão perde a graça para assistir. Mas eu recomendo e vá preparad@ para pegar as entrelinhas do enredo propriamente dito!

Lembrando que o Cine Africa acontecerá até o dia 2 de dezembro e a cada quinta-feira será lançado um novo filme. Então corre para ver este!

Go Rwanda, My Ruanda!

[Cine África] Fronteiras

Histórias diferentes que se cruzam nas fronteiras. História de mulheres que, por muitas vezes, são invisibilizadas.

Pasma. Eu estou ainda pasma, animada, excitada, dando gritos internamente. Acabei de assistir o filme e tenho que dizer que o filme realmente me surpreendeu. Não, meu caros, não que eu duvidasse da produção cinematográfica africana, mas a reviravolta tão grande que deu na minha cabeça na percepção de ver o filme. AMEI!

Imagem: divulgação

Quando eu fui assistir o filme, eu não olhei a sinopse justamente para não “contaminar” a imagem que eu teria do filme, então eu fui no embalo mesmo e vendo onde ia que dar. Sabia que era uma história de mulheres que as histórias iam se cruzar justamente nas viagens das fronteiras, mas nada mais além disso.

Pois bem! O filme vai mostrar uma viagem do Senegal até a Nigéria (ou seja, Senegal, Mali, Burkina Faso, Benin e Nigéria…ufa!), mostrando como as mulheres lidam com as adversidades nesse caminho, especialmente em relação à corrupção das fronteiras. É bem interessante como uma das personagens fala que é permitido a livre circulação de pessoas e bens, ms na prática vemos que não é bem assim – e aqui na América do Sul também acontece esse tipo de coisa, não se enganem!

Quando o filme começou, acho que eu tinha uma visão meio estereotipada do que poderia ser. Fiquei meio “não estou gostando das primeiras cenas”, mas só com o decorrer do filme eu percebi o tom de comédia atrelado ao drama para tratar de temas tão importantes…temas reais. E foi assim que eu passei a ficar tão vidrada no filme que eu esperava para ver como o final iria se desenrolar!

Anotei tanta coisa ao longo do filme, que nem sei se coloco aqui ou não faço spoiler (prévias) do filme, hahahahahah. Só sei que eu achei fantástico ver a evolução das personagens ao longo do filme. Como é importante a união entre as mulheres, essa preocupação, esse sentimento de ajuda. Ver também como a dureza da vida/das situações moldam as pessoas. A fotografia do filme…nem se fala! Como eu fiquei com saudade de Ruanda, de ver o verde se misturando com o concreto. Da vida vibrante – ah, não sei explicar.

O filme também tece uma crítica, como eu falei antes, sobre como as fronteiras são manejadas: todo mundo quer se beneficiar delas. Como que as ‘leis’ acabam sendo estabelecidas nas fronteiras, se podemos dizer assim. E eu não tinha ideia de como seria cruzar as fronteiras, na África, se seria difícil (com burocracias) ou não. Cheguei a ir até a fronteira da República Democrática do Congo, mas não cheguei a cruzar.

Bem, de qualquer forma, esse textinho é a ponta do iceberg que é o filme. Eu realmente gostei dele e o final não é nada previsível, realmente me surpreendeu. Além do filme, tinha uma entrevista com a realizadora do filme, Apolline Traoré (Burkina Faso), de 12 de agosto de 2020, super fresquinha! O filme foi lançado em 2017, no festival que é o coração cinematográfico da África: FESPACO.

Fico por aqui e acompanhem o Cine África, uma iniciativa da Mostra de Cinemas Africanos, em parceria com o Sesc São Paulo. A cada quinta feira eles lançam na plataforma do SESC um novo filme. O Cine África vai até 2 de dezembro, não percam!

Go Rwanda, My Ruanda!

A Mulher de Pés Descalços, de Scholastique Mukasonga

“Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras – palavras de uma língua que você não conhecia – para realizar aquilo que você me pediu” (MUKASONGA, 2017, p. 7).

Gente…que livro. QUE LIVRO! Sério, que livro. Eu não sei nem por onde começar. Dois dias atrás eu o peguei, como quem não quer nada, para dar uma folheada, mas não consegui, comecei a ler. Como estava pensando em diversificar minhas referências para a tese, pensei em livros autobiográficos, documentários, filmes que retratassem a história de Ruanda. E pois bem, chegou a hora dA mulher de Pés Descalços.

O livro me chamou a atenção porque pelo início eu pensava que ia ser histórias do horror de 1994, então toda vez que começava a ler as duas primeiras páginas, eu não aguentava ir para os outros capítulos. Eu não queria ler mais sobre o genocídio – especialmente quando a história é contada na primeira pessoa. É muito forte você colocar rosto nas mais de 800.000 pessoas que morreram, é muito forte você saber da história delas que foram sucumbidas pelo genocídio.

Memorial do Genocídio em Kigali, 2015. Foto: acervo pessoal.

Então dessa vez eu fiz um pacto comigo mesma e segui adiante. Comecei a ver que o livro não era o que eu pensava, e sim uma narrativa que contemplava histórias cotidianas de Mukasonga e, especialmente, sua mãe, Stefania, que é a personagem principal. Mukasonga escreve esse livro em memória da mãe e de muitas “Mães-coragem” que foram estupradas, tiveram filhos dos seus estupradores e seguiram adiante, com a ajuda de outras mulheres.

É muito lindo ver essa rede de mulheres no livro, uma ajudando a outra, acolhendo aquelas que passaram por tamanho trauma. O estupro era instrumentalizado pelos hutus como uma arma de guerra. Como a maior parte daqueles que usavam dessa prática tinha HIV, eles faziam com a intenção de infectar as mulheres tutsis. É muito triste ver a capacidade dos seres humanos de fazer coisas tão abomináveis, coisas tão desumanas mesmo.

A escrita é tão boa, fluida, que você acaba terminando o livro rapidinho, sem se cansar. Eu adorei que a autora traz muitas palavras em kinyarwanda (a língua nacional de Ruanda), o que nos aproxima mais ainda de sua cultura, realidade. tem umas passagens tão fofas, com tantos significados. Se eu tivesse ido para Ruanda e tivesse lido esse livro, olharia para a realidade ruandesa de outra forma, sem dúvidas.

Livros de Scholastique Mukasonga. Foto: acervo pessoal.

Um país rico em tradições, de simplicidade, de significados. Isso que o livro representa. Também é possível ver que, mesmo o país sendo pequeno, as práticas/costumes variam em diversas partes de Ruanda, sendo Kigali (a capital) um mundo, a representação do desenvolvimento.

Mesmo estudando Ruanda desde 2012, sinto que estou mergulhando bem mais profundo na história esse ano. Acho que isso se deve ao tipo de olhar que estou escolhendo para perceber/fazer as conexões com os diferentes aspectos da realidade ruandesa. Me sinto grata por estar tendo mais essa oportunidade para fazer isso. E quero voltar. Quero voltar para poder aproveitar mais ainda as conexões, os laços locais em Ruanda!

Leiam, leiam esse livro! Te juro que você não vai se arrepender!

MUKASONGA, Scholastique. A mulher de pés descalços. São Paulo: Editora Nós, 2017.

Ruanda: a 25 años del Genocidio de 1994.

Um pequeno texto que escrevi durante o Doutorado Sanduíche sobre o Genocídio em Ruanda,

Programa de Estudios sobre América Latina y África (PEALA) - PRECSUR

Hacia 1994, alrededor de 800.000 personas padecieron durante conflictos étnicos-políticos en el marco de lo que se constituyó como el Genocidio de Ruanda. Dicho suceso dejó una profunda marca sobre el pequeño país africano, el cual ha tenido que abordar las diversas consecuencias culturales, sociales, políticas y económicas que el Genocidio acarreó. Cumpliéndose los 25 años desde que se produjo el Genocidio de Ruanda, les dejamos adjuntados dos documentos:

“El Genocidio de Ruanda, 20 años después” escrito por María Noel Dussort realiza un análisis en perspectiva histórica acerca de cómo se configuraban las relaciones entre las etnias del país previo al proceso de descolonización y pos-proceso de descolonización, haciendo posterior referencia al rol de la Corte Penal Internacional de Ruanda luego del Genocidio para finalmente concluir con un análisis de la situación actual del país africano.

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[Desabafo] Sobre professores abusivos e o sistema educacional

Estava tendo um debate em um grupo hoje e me deparo com uma publicação no Facebook exatamente sobre abusos sofridos por um estudante quando estava no mestrado.
 
É triste ver professores que abusam de um poder, de uma posição que deveria ser para educar, dialogar, criar pontes entre mundos, experiências, vivências. É muito triste que, ainda, pessoas passem por essa maquinaria e achem que isso é normal, reproduzindo os mesmos padrões.
 
Entendo que aqueles que sofreram querem alcançar o poder para descontar tudo o que sofreram, mas eu não entendo como reproduzir padrões em circunstâncias tão fundamentais para construções de pilares de conhecimento, de reprodução de perspectivas e de óticas sobre a vida.
 
Só quem sabe e quem já teve o psicológico, a autoestima destruída por esses seres percebe a tamanha gravidade que temos na participação na vida das pessoas. PARA O BEM E PARA O MAL.
 
Reflitam sobre isso. Não dá para reproduzir mais espaços de opressão intelectual, racial, sexual, corporal e qualquer outro tipo de categoria que podemos nos referir aqui. É necessário termos uma perspectiva interseccional sobre a vida e entender que vivemos em sociedade: HÁ MUITA COISA ALÉM DO NOSSO UMBIGO, DO NOSSO EGO.
 
Graças aos bons deuses não me lembro de ter compactuado com esse sistema doente de pressões psicológicas, humilhações e adjacências, disso eu tenho orgulho. O meu intuito de estar na academia é exatamente de compartilhar conhecimento, de conhecer e aprender com as pessoas.
 
APRENDER: posição que eu assumi exatamente nessa quarentena. Meu maior medo era apresentar e dizer “não sei te responder sobre isso”, ser taxada a burra do rolê (porque não passei em boas posições no Mestrado/Doutorado, o que inclusive eu tirei o mérito por ter acessado essas plataformas) ou algo do gênero. NÃO, eu não vou saber sobre tudo, eu não vou ler todos os livros sobre África ou sobre outras temáticas.
 
E QUE LINDO isso. Que lindo saber as “minhas limitações” como ser humano e que eu esteja aqui nessa vida para aprender, por que o que seria de mim sem isso? Hoje estou bem mais confiante do meu papel como educadora e como pesquisadora, independentemente do que as pessoas rotulem sobre mim.
 
Como Patrícia Hill Collins fala, em O Pensamento Feminista Negro, é preciso nos autodefinir para que nenhum desses seres da vida nos venha apontando o dedo querendo nos colocar em caixinhas sem saber da nossa história, dos nossos corres, da nossa ancestralidade. É preciso ser forte, consciente e nos mantermos firmes em relação a fazer diferente quando chegarmos nesses espaços. Não dá para perder nosso objetivo, não dá.
 
Eu cheguei até aqui para falar mesmo. Se antes eu não podia falar, por diversas razões de opressão do nosso sistema, cheguei até aqui para escancarar tudo mesmo. Não dá mais. Ou a gente descoloniza o pensamento ou a gente descoloniza o pensamento. Não dá mais pra ver gente sofrendo pelos NOSSOS ATOS, POR NOSSAS ESCOLHAS, PELO NOSSO SILÊNCIO.
 
Eu falo isso como mulher, negra, nordestina, acadêmica, pesquisadora, ser. Eu estou disposta a aprender para fazer diferente. Eu estou aqui para isso. E me lembrem, pelo amor dos deuses, se algum dia eu desviar desse caminho.
 
Camila Andrade – My Ruanda Brasil – 14/07/2020 – Via Facebook.

Sobre a importância do Documentário “What Happened, Miss Simone?” nos dias atuais

Encontrei a epígrafe da minha tese, acredito. Foi como um choque na hora, porque já tinha escutado a música. Mas acredito que as consciências acontecem em seu tempo.

E pois bem, demorei para assistir o documentário sobre Nina Simone – inclusive estou escutando ela para me inspirar a escrever. Aliás, primeira pergunta: você conhece Nina Simone? Senão, corre pro Google para conhecer não só sua biografia, mas suas músicas – também não só as melodias, mas as letras. Que potência, que mulher! Lembro que a primeira vez que ouvi falar dela foi pelo meu namorado da época – branco, diga-se de passagem, mas que gostava de boa música – e eu fiquei meio “ãn, ok”, mas me marcou o momento pela potência da sua história (ele contextualizou), mas não parei para me aprofundar.

What Happened, Miss Simone? | Site Oficial Netflix
Fonte: Netflix

A segunda vez foi a minha amiga de casa que me mostrou realmente quem era ela, falava dela com tanta efusão, com tanto contexto histórico que resolvi procurar. E, olha…o que era aquilo? Eu sabia que o movimento negro dos Estados Unidos era (não querendo comparar as realidades) muito forte em questão de participação e luta ativa contra a segregação, mas não sabia o tamanho papel que ela protagonizou naquela época com suas letras. E, ainda assim, eu estaria ainda na ponta do iceberg, só me dando conta da potência do que eram as músicas dela naquela época (e agora!) hoje!!

Que potência, que mulher! Eu assisti o documentário todo com um sorriso no rosto. Porque sim, mostra a história de um ser humano, que sofre, que tem fúria, que passa por dúvidas, que tem sonhos. Que tem depressão, que tem ambição, que luta por um mundo  melhor. Que luta por um mundo melhor a partir da sua posição. E sabe o que isso custa para a pessoa? Pra ela custou sua liberdade, muitos dos seus sonhos. Mas pra ela, do que adianta ser artista sem refletir a realidade?

Meu Deus, quando escutei isso, eu falei: É ISSO! Como adentrar na academia, estudar tanto, sem refletir a realidade em que vivemos? De violência policial, de racismo (estrutural, institucional, e assim vai); em um cenário sanitário em decadência, em que muitos da população estão com a consciência política destroçada, individualizada… como viver sem tentar transformar a realidade em que eu vivo, com a ferramenta que eu tenho: o conhecimento?

Assistir o documentário só me deixou mais feliz pelo caminho que estou trilhando, o de descolonização do pensamento; o de construção de um pensamento crítico de autovalorização do que temos de melhor: nossa ancestralidade. O que é “Ain’t got no – I got life”??? O que é isso, senão uma obra prima? É um hino para olharmos para o espelho e vermos a lindeza que somos, a potência que somos! Não tem explicações combinar essa música com as leituras do livro de Patrícia Hill Collins (Pensamento Feminista Negro). Inclusive, conheci outras cantoras de blues pelas referências desse livro. E percebi o universo de materiais (desde literatura, música, audiovisual) que posso  usar na minha tese, até porque são referências – por que não usá-las?

Enfim, nessa quarentena janelas estão se abrindo no meu cérebro. Como se eu estivesse, como Césaise (Discurso sobre Colonialismo) disse, dormitando por algum tempo para despertar a todo vapor. Quanta coisa eu tenho aprendido com esse despertar (explícito agora para os brancos, já que estamos falando há tempos sem sermos ouvidos) da nossa comunidade negra! Ciclos antirracistas, curso de filosofia africana, lendo sobre livros anticoloniais e com uma perspectiva de afrocentricidade, lendo Patrícia Hill Collins….só percebo mais e mais que me falta muita coisa pra ler!!

E isso (claro!) me motiva. Me motiva a querer fazer uma tese melhor, uma tese que reflita a comunidade africana e diaspórica. Que defenda uma perspectiva política que eu realmente acredito. Então estou tratando de ler um pouco de tudo para entender por onde estou caminhando e traçar uma estratégia teórica que melhor caracterize uma realidade crítica, não com as lentes europeizadas. Dá trabalho? Lógico que dá. Uma vez eu vi no Instagram um post que dizia “descolonizar é doloroso”, e eu concordei no exato momento.

Porque nessa quarentena eu passei por (inúmeros) estágios de crises existenciais, teóricas, whatevertentando entender o que/qual era o propósito da minha vida fazendo tudo o que estou fazendo. Mas enfim, isso fica para um próximo post, porque ainda tem muitas reflexões sobre as leituras, vídeos e conversas que estou tendo. Não fugindo do foco do post, ASSISTAM NINA SIMONE, É UMA ORDEM! (ainda disponível no Netflix!)