Quero ir para Ruanda como turista: e agora?

Quando eu pensei em ir para Ruanda, logo me questionei: como entrar no país para fazer pesquisa?

Pois bem, eu não sabia nada sobre a entrada de estrangeiros em Ruanda. Sim, brasileiros precisam de visto para entrar em Ruanda! Como eu tinha uma colega que também estava se planejando para ir para lá, a mesma me ajudou a ver as documentações que eu precisava. Mas eu tinha um problema: a minha permissão para pesquisar em Ruanda (sim, precisa dessa permissão, e será tema para um próximo post!) não tinha ainda chegado, então não tinha como anexá-la a um requerimento de visto. O que eu faria?

No meu caso, sugeriram eu entrar como turista, já que seria somente um mês em Ruanda, e depois mudar para o visto de pesquisadora estando já lá. E foi o que eu fiz. Quais são os passos, Camila? Quando eu fui para lá, em 2015, primeiro tinha que solicitar o visto online e pagar 30 dólares na chegada ao aeroporto. Era simples assim. Daí ganha o carimbo com a entrada e pronto, tudo lindo! Agora no meu caso (a foto abaixo), na semana que eu cheguei eu consegui a permissão de pesquisa, fui no Diretório de Imigração de Ruanda, levei os documentos que precisava e paguei (mais uma vez, não sei quantos em reais) para ter o visto de pesquisador.

Mas isso foi há 5 anos, hoje está diferente. Para quem quiser entrar como turista, ainda é solicitado online, mas podendo pagar online mesmo ou na chegada ao aeroporto. Os valor mudou para 50 dólares e segue valendo por 1 mês. Além de visto de turista, você pode solicitar de conferência (30 dólares, válido por 1 mês), múltipla entrada de negócios (50 dólares, válido por 1 ano) ou o Visto de Turismo do Leste Africano (100 dólares, válido por 90 dias e cobre Ruanda, Uganda e Quênia).

Na época eu achei bem fácil conseguir o visto, especialmente por ser online. A resposta chegou no dia seguinte e eu consegui me planejar dois meses antes para ir. Caso vocês queiram ver em outras modalidades de visto, dá uma conferida no Diretório de Imigração de Ruanda, que você terá informações precisas de um site oficial do governo.

Sobre encontrar minha ancestralidade

2020 foi o ano que eu me (re)conectei com meus ancestrais de uma forma que até me faltam palavras para explicar. A minha ancestralidade me deu forças para lidar com esse ano difícil.

Grandes desafios: essa é a ponta do iceberg que caracteriza o ano de 2020. Ano que já começou difícil porque eu voltava de uma experiência (intercâmbio na Argentina) que eu não era mais a mesma, tampouco queria me adequar ao ambiente que eu deixei. Associado a isso, tinha a famosa tese para escrever – estava ainda perdida em relação ao que fazer com o meu capítulo teórico.

Fevereiro entrou e eu me organizei e coloquei as mãos a obra para escrever a tese; março também. Abril começou a vir um desânimo e eu fui sucumbindo a uma depressão que já vinha tomando espaço desde dezembro. Maio desânimo total. Também em maio começaram toda a movimentação do Black Lives Matter (a morte de Floyd) e aí eu comecei a minha trajetória em busca de um sentido para estar ainda vivendo.

Pensamento feminista negro - Boitempo Editorial

Comecei no grupo de leituras do livro Pensamento Feminista Negro, da Patrícia Hill Collins. Nele eu encontrei mulheres doutorandas, negras, incríveis e pude ter um espaço seguro para compartilhar experiências do racismo cotidiano. Não vou mentir que comecei a ler o livro e me deu muitos gatilhos, especialmente pelo contexto que estávamos vivendo de violência policial e de mortes de adolescentes negros.

Me senti despreparada, como que a cada capítulo estivesse levando socos no estômago. Apesar da dificuldade, todo encontro era uma renovação da esperança e do sentimento de não estar sozinha nessa luta. Não consegui terminar ainda o livro – sim, eu tive que parar um pouco para processar, ler outros livros e voltar – mas já está na lista de 2021 para ser finalizado.

Além do grupo de leitura, comecei a aprofundar mais nos meus estudos sobre filosofia africana. Fiz um curso de Introdução a Filosofia Africana que me tocou, especialmente pela questão do epistemicídio (morte do conhecimento) que é perpetuado em relação a saberes africanos, negros. Isso me deu tantos cliques que eu pude pensar sobre o meu capítulo um e me animar a fazer algo diferente do esperado. Autores como Mogobe Ramose e Renato Noguera foram apresentados e, com isso, eu tive acesso a outros pensadores por meio de uma plataforma chamada Filosofia Africana, a qual reúne texto de diversas temáticas de autores africanos.

Discurso Sobre o Colonialismo - 9788576620570 - Livros na Amazon Brasil

Participando do grupo de discussão sobre pós-colonialismo, tive contato com esse livro incrível do Aimé Cesáire, autor que foi um dos precussores do uso do termo Negritude. Nesse livro ele escancara a desumanidade instalada no colonialismo, além do questionamento da supremacia branca em relação à sociedade africana.

Não tem como deixar de ler esse livro! Passagens fortes, com muita ironia, além de pequenos socos no estômago para acordarmos e termos uma perspectiva crítica em relação à supremacia branca e o racismo estrutural que tanto combatemos no dia-a-dia.

Ainda no mesmo grupo, tivemos um encontro que iríamos discutir sobre alguns capítulos do Memórias da Plantação, da Grada Kilomba. Não tive como ficar apenas nos capítulos selecionados, segui a leitura. Era um livro que tinha vontade já de ler e algumas pessoas tinham indicado. E que livro! Caso vocês queiram saber mais sobre ele, já tem uma resenha aqui no My Ruanda! É um livro muito forte e necessário, com perspectivas cotidianas do racismo, ilustradas por entrevistas. Vale muito a pena!

POR UM FEMINISMO AFRO-LATINO-AMERICANO - - Grupo Companhia das Letras

Depois que o grupo de leitura da Patrícia Hill Collins terminou, decidimos levar adiante nossas leituras e escolhemos ler Primaveras Negras, de Lélia Gonzalez. Dela eu só tinha lido o artigo que fala sobre o conceito de Amefricanidade e já tinha gostado da forma como ela escreve: pé na porta. Descobrimos que esse livro foi relançado em 2020 sob o nome de Por um Feminismo Afrolatinoamericano, sendo que não comporta todos os artigos trazidos em Primaveras Negras. Ainda estou lendo, mas ele fez parte das minhas reflexões em 2020.

Que potência é Lélia. Desde quando me deparei com os escritos dela que eu fico me perguntando o porquê que eu não vi seus escritos em nenhum momento dos meus estudos em Relações Internacionais. Até nas minhas leituras, que também começaram em 2020, sobre Raça e Racismo nas Relações Internacionais, não incluíram nada sobre pensadoras brasileiras – mas isso me deu ideias e se concretização em artigos para o Diário das Nações.

A razão africana: Breve história do pensamento africano contemporâneo |  Amazon.com.br

Para finalizar, o livro A Razão Africana, de Muryatan Barbosa, me ajudou e muito a ter uma perspectiva histórica sobre o pensamento africano contemporâneo, passando desde o movimento da negritude a perspectivas do pan-africanismo. Gostei muito de lê-lo e a leitura me impactou em termos de reconexão com a ancestralidade, além do lado intelectual (pessoal e voltado para minha tese).

Diria que esse livro é um bom começo para quem quer entender como os movimentos, pensadores, perspectivas se entrelaçam ao longo da história. Se eu tivesse um livro parecido como esse no início do meu doutorado, muitas das minhas perguntas e pontos que estavam soltos seriam respondidos previamente, acelerando o processo da escrita do meu projeto e tese.

Depois deste longo post, eu espero que vocês escolham pelo menos uma dessas preciosidades para ler, de verdade. Eu digo que todos valem a pena, todos todos. Cada um traz uma temática, uma perspectiva, uma linguagem. Eu sou muito agradecida pela companhia dos meus ancestrais que me guiaram, por meio dos livros, nessa jornada tão difícil que foi o ano de 2020. Espero muito que o ano de 2021 seja de esperança e concretização de novas coisas e de coisas que ainda ficaram pendentes no ano anterior.

A todos, uma boa leitura!

Como se planejar para 2021?

É, meus caros e minhas caras. Finalmente o ano de 2020 está terminando. E final de ano pensamos em que? Planejamento!

Parece que vivemos 5 anos em 1. As vezes parece que vivemos menos de 1 ano. Os efeitos da quarentena foram os mais diversos para cada pessoa, e mesmo com as atividades previamente planejadas, tudo mudou. Viagens, empregos, encontros, metas: não teve (quase) nada que se salvou nessa quarentena. E como se planejar para 2021 se ainda vivemos na incerteza da quarentena?

Bem, eu sou uma pessoa que gosto muito de revisar minhas metas anuais, o que eu progredi ao longo do ano, enfim, estar sempre me acompanhando ao longo do tempo. Às vezes fazemos tantas coisas que perdemos a noção, ao longo do ano, do quanto que fizemos e fica aquela sensação de não ter feito nada! Quantas vezes você já sentiu isso? Pois bem!

Pensando nisso, eis algumas estratégias que uso já no final do ano para me organizar para o ano seguinte!

1. Faça metas anuais
Faltando alguns dias para terminar o ano, eu organizo metas que quero alcançar ao longo do ano: viajar para tal país, aprender tal idioma, conseguir juntar x reais, ler x livros. Ou seja, o que você gostaria de atingir ao longo de 12 meses? Geralmente eu escrevo entre 10 e 15 metas para que sejam tangíveis. Não adianta escrever tantas se você não se comprometer a cumpri-las.

2. Faça uma retrospectiva do ano
Além de revisar as metas que eu fiz para aquele ano – que é uma ótima forma de acompanhamento do que você fez ao longo do ano – eu gosto de escrever uma carta para mim mesma falando das minhas impressões sobre o ano. Sim, escrevo a carta, com a intenção de futuramente olha-la de novo e perceber a minha percepção daquela época; se obtive novas ferramentas para lidar com determinadas situações, etc. Tenho que confessar que às vezes fico com preguiça de fazer, mas sempre que faço me dar um alívio de colocar meus pensamentos no papel e saber que está tudo registrado.

3. Tenha uma agenda/planner/bullet journal
Depois que eu descobri a ‘tecnologia’ do planner (hahahahahhaha), nunca mais fui a mesma! 2021 será meu quarto ano consecutivo usando-o e digo que mudou a minha vida! Antes eu tinha a mania de comprar agendas normas com a promessa de completa-la ao longo do ano, mas sem sucesso! Já o com o planner, realmente consegui organizar as minhas tarefas e desenvolver o hábito da leitura, de alongamento/yoga e demais tarefas de repetição que requer uma organização de tempo/espaço. Como eu não tenho paciência para decorar e não tenho habilidades de desenho (hahahahaha), opto por um planner já pronto do fazer um billet journal (que você vai montando as seções dele da forma que você quiser). Enfim, em um próximo post eu posso me aprofundar melhor nisso.

Bem, essas são as super dicas para 2021. Me conta, você já se planejou, já colocou seus anseios para o ano que vem no papel? Hoje eu vou fazer o meu planejamento e já estou animada! Realmente espero que o ano de 2021 seja mais leve do que esse que passamos!

Go Rwanda, my Ruanda!

Sobre Memórias da Plantação – Grada Kilomba

Um livro que muitas pessoas tinham me indicado e só agora tive a oportunidade de ler. E que incrível que ele é, não tem como não ler e se identificar.

O ano de 2020 foi difícil. Mas o que eu tive de bom foram as leituras que eu fiz ao longo dele. Até agora foram 30 livros lidos, um dos anos que mais li livros completos em toda a minha vida. E eis que me deparei com as leituras de feminismo negro, pós-colonialismo e negritude. Foram as que me deram alicerce para seguir adiante nesse ano tão sombrio.

Mas vamos falar sobre o livro de Grada Kilomba, Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano. O livro tem o objetivo de mostrar como o colonialismo se renova a cada dia por meio de atitudes racistas do dia-a-dia. Políticas espaciais, do cabelo, da pele e sexuais são alguns dos capítulos em que Grada vai relatar, por meio de entrevistas, a nojeira do que é passar por esse tipo de situação e como a supremacia branca se vê abalada pela perda dos seus dias áureos do colonialismo.

Bebendo de referências como Fanon, Grada desenvolve sua pesquisa no campo da psicologia, estabelecendo um paralelo em que o homem branco coloca suas frustrações no Outro, sendo o seu lado horrível. Daí estabelecemos uma dicotomia entre o sujeito (branco) e o Outro (negro): moderno-primitivo, limpo-sujo e assim por diante. Assim como Fanon, Grada questiona o lugar do negro como Outro e nos convida (nós, negros) a fazer um caminho diferente, em busca de ser o sujeito da história por meio da descolonização do eu.

O livro não tem muita conexão com o recorte da minha tese, mas perpassa o aporte teórico que eu quero trabalhar, então algumas passagens do livro eu utilizei na introdução, como a necessidade de descolonizar a produção de conhecimento em um ambiente extremamente eurocentrado, a questão de se fazer determinadas perguntas para colher as respostas que lhe correspondem, dentre outros aspectos.

Eu recomendo muito o livro, não somente por um viés acadêmico, mas para uma perspectiva de vida que talvez não seja a sua. As vezes vivemos em nossas bolhas cotidianas que não entendemos as realidades de outras pessoas e também não buscamos ferramentas para descolonizar práticas que já estão intrínsecas em nossa forma de falar, agir, pensar. Precisamos buscar outras referências que possibilitem reflexões e visibilização de histórias, falas de outras pessoas. Precisamos descolonizar a mente. Grada pode ser um bom início.

Wakanda e as Relações Internacionais – Parte 3 – e o nosso Brasil?

A terceira e última parte da aventura wakandiana.

Diário das Nações

Camila Andrade

Iniciado com o primeiro texto sobre aspectos introdutórios e o segundo sobre o lugar da África nas Relações Internacionais, a série “Wakanda e as Relações Internacionais” finaliza com sua parte três, a qual trará aspectos sobre nossa realidade: onde está o Brasil nisso tudo? É um bom exercício para percebermos as conexões entre o cenário doméstico e o internacional, especialmente sobre as conexões entre Relações Internacionais e diferentes temáticas.

Como visto na primeira parte, o filme Pantera Negra, desde a sua estréia, teve impacto no quesito de reflexão sobre ancestralidade africana e representatividade dos negros no Brasil. A morte do ator Chadwick Boseman, em um contexto que em o movimento Black Lives Matter reacendeu todos os debates acerca da morte de pessoas negras nos Estados Unidos – e não se limita somente nesse país – fez com que o filme tivesse, novamente, um destaque internacional, entrelaçado com questões…

Ver o post original 727 mais palavras

Wakanda e as Relações Internacionais Parte 2 – O lugar da África nas Relações Internacionais

Meu segundo texto no Diário das Nações – a continuação

Diário das Nações

Camila Andrade

Iniciado com o primeiro texto sobre aspectos introdutórios, no “Wakanda e as Relações Internacionais – Parte 2” enfocaremos na África e as Relações Internacionais. É sempre bom falar sobre esse recorte porque é o que me motiva desde o final da minha graduação a estar na área de Relações Internacionais pesquisando o continente africano. E alguns pontos têm que ser ressaltados em relação a isso.

Como abordado no texto anterior, é interessante fazermos uma reflexão sobre o lugar da África nas Relações Internacionais. Todas as perguntas elucidadas anteriormente seguem por um caminho de questionamento do porquê o continente ainda é marginalizado nas agendas de pesquisa do mainstream do curso. Quando eu comecei a graduação em relações internacionais, em 2009, eu não tinha nenhuma matéria específica sobre África e seu universo: relações intracontinentais, política internacional, integração regional, economia, questões domésticas, conflitos, saúde e outras temáticas que podem ser aprofundadas…

Ver o post original 1.170 mais palavras