[Cine África] Fronteiras

Histórias diferentes que se cruzam nas fronteiras. História de mulheres que, por muitas vezes, são invisibilizadas.

Pasma. Eu estou ainda pasma, animada, excitada, dando gritos internamente. Acabei de assistir o filme e tenho que dizer que o filme realmente me surpreendeu. Não, meu caros, não que eu duvidasse da produção cinematográfica africana, mas a reviravolta tão grande que deu na minha cabeça na percepção de ver o filme. AMEI!

Imagem: divulgação

Quando eu fui assistir o filme, eu não olhei a sinopse justamente para não “contaminar” a imagem que eu teria do filme, então eu fui no embalo mesmo e vendo onde ia que dar. Sabia que era uma história de mulheres que as histórias iam se cruzar justamente nas viagens das fronteiras, mas nada mais além disso.

Pois bem! O filme vai mostrar uma viagem do Senegal até a Nigéria (ou seja, Senegal, Mali, Burkina Faso, Benin e Nigéria…ufa!), mostrando como as mulheres lidam com as adversidades nesse caminho, especialmente em relação à corrupção das fronteiras. É bem interessante como uma das personagens fala que é permitido a livre circulação de pessoas e bens, ms na prática vemos que não é bem assim – e aqui na América do Sul também acontece esse tipo de coisa, não se enganem!

Quando o filme começou, acho que eu tinha uma visão meio estereotipada do que poderia ser. Fiquei meio “não estou gostando das primeiras cenas”, mas só com o decorrer do filme eu percebi o tom de comédia atrelado ao drama para tratar de temas tão importantes…temas reais. E foi assim que eu passei a ficar tão vidrada no filme que eu esperava para ver como o final iria se desenrolar!

Anotei tanta coisa ao longo do filme, que nem sei se coloco aqui ou não faço spoiler (prévias) do filme, hahahahahah. Só sei que eu achei fantástico ver a evolução das personagens ao longo do filme. Como é importante a união entre as mulheres, essa preocupação, esse sentimento de ajuda. Ver também como a dureza da vida/das situações moldam as pessoas. A fotografia do filme…nem se fala! Como eu fiquei com saudade de Ruanda, de ver o verde se misturando com o concreto. Da vida vibrante – ah, não sei explicar.

O filme também tece uma crítica, como eu falei antes, sobre como as fronteiras são manejadas: todo mundo quer se beneficiar delas. Como que as ‘leis’ acabam sendo estabelecidas nas fronteiras, se podemos dizer assim. E eu não tinha ideia de como seria cruzar as fronteiras, na África, se seria difícil (com burocracias) ou não. Cheguei a ir até a fronteira da República Democrática do Congo, mas não cheguei a cruzar.

Bem, de qualquer forma, esse textinho é a ponta do iceberg que é o filme. Eu realmente gostei dele e o final não é nada previsível, realmente me surpreendeu. Além do filme, tinha uma entrevista com a realizadora do filme, Apolline Traoré (Burkina Faso), de 12 de agosto de 2020, super fresquinha! O filme foi lançado em 2017, no festival que é o coração cinematográfico da África: FESPACO.

Fico por aqui e acompanhem o Cine África, uma iniciativa da Mostra de Cinemas Africanos, em parceria com o Sesc São Paulo. A cada quinta feira eles lançam na plataforma do SESC um novo filme. O Cine África vai até 2 de dezembro, não percam!

Go Rwanda, My Ruanda!

[Carolina Condé] Por que estudar o Oriente Médio?

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Photo by Ylanite Koppens from Pexels

A pergunta-título desse texto foi um pedido direto da Camila para que eu me posicionasse aqui sobre porque estudar esse pedaço do mundo que todo mundo se propõe a falar e, muitas vezes, fala várias porcarias. A começar de chamar a região de Oriente Médio. Você sabia que assim foi chamada por determinação britânica, logo depois da colonização da Índia, para marcar o ponto médio entre a ilha da Grã Bretanha e sua nova colônia? Pois é, antes disso a região era chamada de Oriente Próximo. Edward Said, em seu livro mais conhecido, Orientalismo, nos diz, logo na capa, que o Oriente (árabe, nesse caso) é uma construção do Ocidente. Oras, se ele é uma construção, significa que apenas algumas partes o formam, certo? A lógica é simples: assim como quando construímos uma casa escolhemos o que vai compô-la, quando escolhemos falar de alguma região do mundo, de alguma cultura, religião, povo, nós também escolhemos o que falar sobre eles. E é justamente por isso que o Oriente árabe deveria ser mais e, principalmente, melhor estudado. 

Assim como o continente africano foi colonizado, dividido e roubado pelas potências coloniais e imperiais europeias, a região que chamamos de Oriente Médio também foi. A diferença é que a incursão colonial europeia na região começa logo após a Primeira Guerra Mundial, em função da queda do Império Turco Otomano. Enquanto África foi dividida no Congresso de Viena, em 1815, o Sykes Picot, dividiu a região que antes era dominada pelo Império Otomano. Aqui é importante ressaltar que Sykes Picot foi assinado em 1916, ou seja, dois anos antes da guerra terminar, Inglaterra e França já haviam decidido sobre o destino da região. Além disso, em 1917, Balfour, então secretário britânico dos assuntos estrangeiros, publicou a famosa Declaração Balfour, que garantiu à comunidade judaica que a região da Palestina seria entregue a eles para que ali fosse fundado um Estado judeu. Sykes Picot não apenas dividiu o território do Oriente Próximo como também estabeleceu a ordem política, impondo monarquias e os grupos que dominariam a região pelos anos a se seguir. 

Quando olhamos para a história da região durante todo o século XX e XXI percebemos o quanto a imposição ocidental, primeiro europeia e depois estadunidense, na região, contribuíram para os desequilíbrios, conflitos e para a perpetuação de um sistema que oprime a maior parte da população em detrimento de benesses de alguns poucos. Parte desses alguns poucos são externos à região. Sempre bom relembrar que empresas ligadas ao setor de exploração do petróleo sempre tiveram muito interesse na região. O interesse supera a lógica empresarial de tal forma que na década de 1970, após o Primeiro Choque do Petróleo, o Oriente Próximo se tornou questão de segurança nacional nos EUA, a chamada Doutrina Carter. Durante a Guerra Fria, a região também foi local de conflito de interesses das duas potências da época. A invasão soviética ao Afeganistão, no longo prazo, deflagrou os atentados do 11/09 contra os EUA – atacados por aquele que um dia financiaram para combater os comunistas. Além disso, desde 1948 temos toda a questão e acirramento do conflito Israel – Palestina que, vou lhes dizes, NÃO TEM NADA A VER COM RELIGIÃO. O que tem a ver com religião é o que vivemos hoje, com a volta do antissemitismo e a acentuação da islamofobia.

Estudar o Oriente Médio ou Oriente Próximo, como queira chamar, é importante porque nos permite ir além da lógica imposta da compreensão da região. É dar uma chance para a história, mas a história daqueles que foram colonizados, roubados, enganados e marginalizados por um discurso que os perpetua como bárbaros, não a história do colonizador que se achava no direito de invadir. Estudar a história do Oriente é entender que parte do nosso conhecimento, que é perpetuado como ocidental, foi na verdade roubado e seus verdadeiros sábios silenciados. O sistema numérico que nós usamos é chamado arábico não a toa  e aquele esquisitão é chamado de Romano também não a toa. Assim, respondo a pergunta-título dizendo: devemos estudar o Oriente Médio e os locais que não compõem o Norte global porque só assim nós iremos entender a lógica das relações globais que nos foi, e continua sendo, imposta; porque assim nos será permitido decolonizar nosso saber e, apenas dessa forma, iremos ouvir as vozes daqueles que foram, e continuam sendo, silenciados.

Carolina Condé é bacharel em Relações Internacionais e Economia pela FACAMP, mestra em Relações Internacionais pela UFSC e, atualmente, está como graduanda em Pedagogia na UNICAMP. Há pouco tempo tem se aventurado mais a fundo nas discussões decoloniais e pós-coloniais. Teve como temas centrais da pesquisa no mestrado a islamofobia e sua implicação para a Palestina.

[Sobre criar oportunidades] Volunteer Vacations (VV)

Se fala muito sobre justiça social e como podemos mudar o mundo em que vivemos, especialmente sendo antirracistas. Você sabe como fazer?

Pois bem! Eu me perguntei a mesma coisanão a parte de ser antirracista, mas de mudar a realidade em que eu vivo – e desde quando eu estava na graduação de RI eu pensava em como eu posso fazer isso. Como, COMO? É a grande pergunta. Às vezes pensamos que vamos fazer isso em grandes organizações (ONU e ONGs famosas), viajando pelo mundo…e está tudo bem, uma coisa não exclui a outra. Mas e quem não tem dinheiro para viajar? E quem ainda não tem as skills tão solicitadas para trabalhar em grandes organizações? Fica parad@?

Eu lembro que fui assistir o documentário/filme sobre a vida de Sebastião Salgado (O Sal da Terra, já farei uma resenha sobre) e eu chorei muito ao longo da exposição. Ao mesmo tempo que eu via a dor em Ruanda, eu via que ele conseguiu usar um instrumento para causar um impacto social: a câmera, a fotografia. Daí eu saí do filme ainda chorando, e perguntei para meu ex-namorado: e eu? como eu vou ajudar as pessoas? Eu não tenho nada!

Nossa…só de pensar nessa cena me dói o peito. Porque eu realmente tinha essa dor no coração por não me ver fazendo algo que eu acreditava que era que eu tinha que fazer, que era ajudar pessoas. Como eu estava fazendo isso, estudando puramente RI? Fazendo mestrado? Pesquisando? – vi que eu tinha mais perguntas do que respostas. Eu via a facilidade de algumas pessoas inserindo-se em lugares que eu não imaginava estar e eu questionava o porquê que eu não conseguia chegar, o que eu estava fazendo errado.

Hoje, no contexto que estamos vivendo do Coronavírus, eu entendi o porquê eu não assumia alguns espaços: oportunidades. nem todos tem a oportunidade de não se preocupar com o futuro financeiro, nem todos tem a preocupação de te aceitarem pela sua aparência, nem todos tem que comprovar constantemente quem é você – quem é você? de onde você é? o que você faz? você sabe falar várias línguas? já viajou para outros países? -> ou seja, constantes testes.

Por que eu estou falando sobre isso tudo? Porque exatamente quando eu me perdi, eu me encontrei. Nesse contexto infernal da pandemia, onde eu realmente tinha perdido o sentido do que eu estava fazendo, eu recebi oportunidades para ressignificar e assegurar o meu papel nessa luta constante. Comecei a fazer cursos na Volunteer Vacations (VV) que me proporcionou ter um conhecimento do campo que muitas vezes não vemos na academia e, mais ainda, ter contato com pessoas incríveis!

Ter experiência de questões humanitárias, ter um pensamento descolonizante e antirracista, ser um posicionamento face às questões globais…que organizações fazem isso? E ainda oferece bolsa? Pois bem, desconheço. Tive o prazer de ser indicada para participar desse universo tão mágico e eu convido vocês a darem uma olhadinha no site deles, vale muito a pena – e não, não é somente porque eu estou fazendo o curso, porque eu realmente consigo me ver adiante atuando, pensando em como eu posso fazer, independentemente de grandes organizações, o meu papel localmente como agente de mudança.

VV Ruanda
Mini participação no curso da VV falando sobre Ruanda

E no sábado passado (25 de julho) fiz uma minizinha participação na aula falando sobre Ruanda. Olha, que felicidade de participar e fazer o que eu tenho como objetivo com o My Ruanda: democratizar o conhecimento sobre África nas Relações Internacionais! Ah, esse dia 25 foi um grande dia (além de ser o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha)! Obrigada por tudo, VV!!

Sobre quando temos que escrever e não temos ânimo

Entreguei meu Capítulo 1. YEEEY, finalmente. E o ânimo de começar tudo do zero para fazer o Capítulo 2? =(

Eis que estou aqui na frente do computador com a minha lista pronta com as leituras que eu tenho que fazer para o capítulo dois da minha tese. Quanto mais eu achava autores que falassem justamente sobre o recorte do capítulo, eu imaginava “meu Deus, eu não tenho tempo para ler isso tudo…meu Deus, EU NÃO TENHO TEMPO“.

Não sei vocês, mas estou correndo contra o tempo. Fiquei muito tempo estacionada no primeiro capítulo, como que tentando montar um quebra cabeça de mil peças pequenitas e não estava entendendo se estava indo no caminho certo ou se estava tudo errado – tinha medo, e o medo na maioria das vezes sempre me paralisa.

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O caos existencial de ter que lidar com tanta bibliografia. Foto: Pexels

Quando eu finalmente consigo entregar o primeiro capítulo, me sobe um pânico de tudo estar errado, de eu estar seguindo em um caminho errado, de os prazos estarem passando, de eu não ter tempo. Gente, se arrependimento matasse, acho que estaria escrevendo desde 2017, o ano que eu entrei no doutorado. Porque é isso, quanto mais você lê, mais aparece coisa para ler, mas aparece coisa pra fazer.

Como gerenciar tudo isso? Como não perder a motivação diante da situação? Porque fazer, temos que fazer…mas poderia ser prazeroso, poderia ser menos dolorido. Então se vocês tiverem dicas (que não seja sentar a bunda na cadeira e fazer, já estou fazendo isso) estou escutando vocês ❤

E go Rwanda, My Ruanda!

Sobre as idas e vindas da vida [preciso estudar!]

O tempo passa tão rápido que às vezes não conseguimos acompanhar as idas e vindas da vida.

Hoje vai ser o dia de um postzão com coisas gerais, que ao longo da semana eu vou entrando em cada tópico e apresentar mais detalhes a vocês.

Ponto 1: A última vez que eu escrevi aqui eu estava na Argentina. Minha culpa! Tanta coisa aconteceu que não consegui gerenciar o My Ruanda. Tenho que confessar que ter um blog atrelado a redes sociais é uma tarefa complicada, requer planejamento, tempo e motivação para não desistir do projeto no meio do caminho…. e foi o que aconteceu com o My Ruanda.

Eu gosto de escrever, mas não gosto de fazer toda a divulgação em Facebook, Instagram para que as pessoas possam ler. Claro que eu quero que outras pessoas leiam e que compartilhem suas experiências, sugestões comigo, mas esse processo de divulgação cansa, e não quero mais isso. Quero que o My Ruanda volte a ser como antes, simples.

Então quem quiser acompanhar o My Ruanda, vai ser do modo convencional (visitando o site) e é isso, se eu fizer vídeos, vou postar diretamente aqui – aqui vai ser a plataforma oficial.

Ponto 2: TENHO QUE ESTUDAR! Meu Deus, que dificuldade está sendo isso! Confesso também que não rendi tanto na escrita na Argentina. Consegui algumas leituras bem interessantes para o capítulo 1, mas a escrita escrita mesmo eu não rendi, então estou fazendo o trabalho de muitos meses em 2 meses – preciso terminar esse capítulo si o si!

Está sendo um processo bem difícil porque é exatamente no capítulo teórico que eu tenho mais dificuldade de desenvolver, de conectar as ideias e pensar na teoria para África. Bem, em um próximo post eu explico mais ou menos o que eu estou fazendo e conto com a sugestão de vocês.

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Esses são os dois pontos principais que senti que tinha que compartilhar com vocês ASAP, mas muita novidade, angústias, alegrias ainda estão por vir!

Acompanhe o My Ruanda Brasil!  cropped-c3adndice.png

4 anos de My Ruanda e 3 anos da volta de Ruanda

Parece que não, mas o tempo passa rápido! Eu ainda lembro quando eu estava planejando criar o blog do My Ruanda, em dezembro de 2014, de pensar em fazer a campanha de arrecadação e de falar para o mundo que eu gostaria de ir para Ruanda.

Tudo aconteceu tão rápido que eu ainda tenho a impressão que eu não aproveitei o suficiente, que tinha tanta coisa para ver, mas não deu tempo. Que ficar apenas um mês foi um erro, e sim deveria ter ficado no mínimo dois.

Mas é isso, apesar de todos os deverias, sobra demais vontade de voltar e fazer tudo que eu não fiz, redescobrir tudo que eu fiz, pesquisar, estudar, rever meus amigos, viver novas experiências. E isso que move meu ano de 2019.

My Ruanda Brasil wishes you a Happy New Year!

Eu estou muito animada para tocar o My Ruanda esse ano! E você, quais são seus planos, metas, sonhos? 🙂

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