Sobre buscar livros de autores africanos no sebo

Um dos meus sonhos era ter uma biblioteca em casa. Depois de montar uma mini-biblioteca, agora estou focando nos livros relacionados à temática africana.

No post anterior eu contei que eu comprei o livro de Pepetela (As Aventuras de Ngunga) no sebo. E foi uma experiência bacana porque fui em um sebo, por acaso, e vi na vitrine o livro do Mia Couto – acho que um dos mais conhecidos autores africanos no Brasil, com a disponibilidade de livros seja em lojas, como em sebos. E outros autores africanos, como achá-los?

Depois de comprar no sebo. Dezembro, 2018.

Nesse sebo, fui recebida por um moço que pacientemente olhou a lista de 10 autores africanos que você precisa conhecer e foi olhando na loja para ver se encontrava algum deles na prateleira. Não conseguiu encontrar nada mais além do livro que estava na vitrine. Fiquei pensativa. Por que é tão difícil encontrar livros de autores africanos, sendo que muitos deles escrevem em português (Pepetela, Mia, Agualusa)?

Fui em um outro sebo do lado e lá já encontrei mais livros além do Pepetela que comprei: de J. M. Coetzee (Juventude; eu não conhecia esse autor) e o de Ishmael Beah (O Brilho do Amanhã; já conhecia o autor). Essa busca só me deixou mais animada ainda para fazer um tour por sebos e incentivar também que estas pessoas vejam que há uma procura por livros de autores africanos e/ou com temáticas africanas.

Não sei se anteriormente já existia uma procura, mas eu vou fazer minha parte. Porque eu quero que outras pessoas tenham contato com essa literatura. Ainda tenho os livros de Mukasonga (Nossa Senhora do Nilo e A Mulher de Pés Descalços) que comprei na Feira do Livro de Porto Alegre esse vai ser o tema – retroativo, hahaha – do próximo post e outros mais na minha mini-biblioteca de livros africanos.

E você, qual livro está lendo?

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[Literatura] As Aventuras de Ngunga – Pepetela

Este ano eu aproveitei para comprar e ler livros africanos. O livro de Pepetela foi um deles.

As aventuras de Ngunga
Capa do livro

Este livro eu tive o prazer de encontrar em um sebo. Da década de 1980, essa edição tem letras grandes (adoro), confortável para ler e aquela pegada de livro antigo – óbvio que eu comprei na hora.

Um livro simples, com uma pequena história do pequeno Ngunga, com apenas 13 anos, que desbrava Angola no período das lutas de libertação. O livro é interessante por retratar um contexto histórico e, mais especificamente, a relação dos locais com os colonialistas. Achei fantástica as simples lições de vida que o livro traz!

Pepetela (sendo este o nome de guerra de Artur Pestana), era combatente na Frente Leste de Angola, escrevendo o livro na época que estava em combate. A linguagem do livro é simples e acessível, com um glossário no final do livro (ainda assim tinham algumas palavras que não tinha ideia do que eram), tornando a leitura prazerosa.

Não será numa parte desconhecida de ti próprio que se esconde modestamente o pequeno Ngunga?

Ou talvez Ngunga tivesse um poder misterioso e esteja agora em todos nós, nós os que recusamos viver no arame farpado, nós os que recusamos o mundo dos patrões e dos criados, nós os que queremos o mel para todos

Se Ngunga está em todos nós, que esperamos então para o fazer crescer?

(PEPETELA, 1987)

Por eu estar estudando a formação do Estado na África, ler este livro me ajudou a ilustrar as passagens teóricas que eu tinha em mente com uma retratação histórica do que foi o período colonial na prática. Simplesmente vale a pena ler este livro! Eu não vou nem contar muito sobre ele porque eu não quero dar spoiler, então fica a dica para vocês lerem!

Já tenho outro livro do Pepetela para ler – Mayombe – mas esperarei o ano virar para me dedicar às leituras africanas. E você, o que está lendo agora?

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Sobre a minha volta de Ruanda há 3 anos.

12/12/2015 – Há três anos eu voltava de Ruanda com o coração partido de estar indo. Deixava amigos, descobertas que tinha feito e trazia um coração cheio de esperança, alegria e gratidão.

Começo com um texto do meu Instagram pessoal que fala um pouco do meu sentimento:

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“Há exatamente 3 anos eu estaria voltando de Ruanda. 12 de dezembro de 2015.
#$%&*#@, quando eu vi o lembrete com uma foto de 3 anos atrás, meu coração chega estremeceu. Como o tempo passa rápido, quanta coisa aconteceu!
Me senti triste por deixar tanto tempo passar e não voltar ainda; ao mesmo tempo me senti feliz porque hoje eu estou mais madura do que eu fui, mais motivada e segura do que eu quero fazer.
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Ontem foi o dia da minha participação na Mostra de Cinemas Africanos, contando a minha experiência como acadêmica negra. Esse vestido que eu tô usando eu comprei em Ruanda. Que coincidência linda essas datas colidirem-se? ❤️ Que saudade!”

Que saudade! Que saudade, que saudade de toda a experiência que eu tive em Ruanda até ter ficado doente, rs, mentira! Voltar foi muito doloroso porque eu estava cansada, muito cansada pela diferença de comida, de estresse por causa da coleta de dados…então queria ir pra casa, mas não queria completar minha experiência lá, parece que eu não tinha aproveitado ao máximo possível.

Lembro muito do dia 12/12. Do sentimento de ir embora, da despedida do pessoal do hostel. De chorar no táxi a caminho do aeroporto. De chegar naquele aeroporto vazio para deixar aquele país que estava em meus sonhos.

Parti para a Bélgica sem muita vontade de dialogar. Mas me sentia diferente, me sentia confiante. Sentia que esse momento com pessoas parecidas comigo (negras) me deixou mais confiante, mas segura de mim, porque a atmosfera em Ruanda era muito diferente dos estereótipos que se pregam em nossa sociedade doentia e com um racismo estrutural.

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Voltando da Mostra de Cinemas Africanos. Dezembro, 2018.

Me senti querida sem ter que “fazer força’ para provar que valia a pena ser querida, mesmo sendo negra – ou seja, isso reflete a tamanha força que temos que fazer todo o santo dia para que as pessoas nos respeitem, para que as pessoas não nos rotulem meramente por causa da cor de pele. Ruanda me deixou relaxada nesse aspecto, me deixou viva, me deixou feliz.

E eu quero voltar para lá para renovar isso, para eu poder trazer esses ensinamentos para outras pessoas, outras meninas, mulheres que com certeza também passam por isso. Como teve uma vez em um texto no Facebook que eu compartilhei, às vezes cansa ter que lutar todo o santo dia por causa disso.

Mas eu me inspiro para lutar todos os dias não só por mim, mas pelas meninas/mulheres que me acompanham nesta luta.

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Sobre o nascimento do meu filho: projeto + capítulo 1

Eu fiquei em êxtase e sem saber o que sentir. Mas uma coisa eu tinha certeza: ele nasceu! ❤️

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Desde março de 2018 estou trabalhando na elaboração do projeto. Eu já tinha uma temática que queria trabalhar, mas sempre é um trabalho para sair do nível geral da coisa para ir para o nível específico. Pensei: o que de Ruanda é importante estudar? O que pode ser relevante contemporaneamente que vai enriquecer meu arcabouço teórico e iluminar os pensamentos de quem vai estudar África e Ruanda?

Escolhi continuar com o processo de reconstrução pós-conflito (nada mais contemporâneo que isso) e o processo de integração nacional e regional de Ruanda. Quando eu comecei a ler mais sobre as bases teóricas sobre Estado africano, me motivou mais ainda a querer saber mais sobre o tema. E enfim, cheguei ao meu objeto de pesquisa e estou me sentindo bem feliz com ele: ele me motiva.

Eu ainda quero escrever um post exclusivo sobre o processo de desenvolvimento de um projeto de pesquisa porque não é nada fácil. Tem pessoas que o processo flui de forma rápida, tem outras que precisam de um período de maturação maior para desenvolver o projeto. Mas geralmente não é fácil. Em um outro momento eu conto como foi minha experiência esse ano.

Para complementar o post, coloco aqui o que eu postei na minha conta pessoal do Instagram porque foi em emblemático o momento, foi logo após de imprimir as cópias do meu bebê!

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“Meu bebê nasceu! ❤️  Projeto + Capítulo 1 da tese.

Se eu não to acreditando que finalmente chegou o dia de vê-los impressos? Não mesmo! Se eu tô tão feliz de finalmente ver minha ideia criando forma? Com certeza!

Tô muito feliz por já ter uma estruturinha no papel do que eu quero fazer em Ruanda e como desenvolver; to muito feliz porque, assim como em 2012 e 2014, esse ano eu falei com toda convicção que ia para Ruanda. E vou. Vou voltar para o lugar que me realizei como pessoa e to ansiosíssima para isso.

Ps: olha a minha carinha de besta, rs.

A data? Ainda não sei, mas já ja sai!”

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“Eu não sei ainda o que é ser negra”: substratos de um convite 1

“Eu não sei ainda o que é ser negra” – foi uma frase que eu usei em uma conversa no WhatsApp.

Recebi um convite para participar de um bate-papo pós-filme na Mostra de Cinemas Africanos, no Capítulo, em Porto Alegre (RS – Brasil). Fiquei muito feliz, especialmente por ir falar sobre representatividade da mulher negra na academia (o tema geral é sobre “Representatividade feminina negra: desdobramentos entre África e Brasil”).

Mostra de Cinemas Africanos

Sempre conversei com meus amigos e afins sobre a questão da representatividade na academia. Algumas vezes isso me incomoda profundamente a ponto de me deixar sem graça e sem jeito em algumas situações, por ser “a diferentona”; outras vezes eu sinto ainda o incômodo, mas ajo como a pessoa representando por outras pessoas – aquele papel que eu gostaria que alguém tivesse feito por mim (que responsa, ein Camila? Rs! Brincadeiras a parte, SIM, é uma responsa e que pode nos deixar doentes por exigir tanto de nós, por sermos diferentonas sempre, por isso que é bom sempre refletirmos sobre o nosso papel em ocupar espaços e estarmos conscientes disso).

Mas um medo bateu em relação a minha participação. E se eu só contar minha experiência e não ser suficiente? E se eu não souber questões acadêmicas sobre negritude, sobre lugar de fala, feminismo negro (Djamila Ribeiro, Angela Davies) e outras questões que estão sendo discutidas e eu vivo bitolada no meu mundo acadêmico do outro lado de cá? E se eu não sei ainda o que é ser negra?

Essa pergunta, depois que eu falei ‘alto’ ou seja, enviei a mensagem ficou latejando na minha cabeça. E eu decidi ler mais sobre questões que me tocam, porque eu faço desse recorte social, mas não me envolvo. Fazendo uma digressão, percebi que não me envolvo em questões de negritude quando estava conversando na quinta-feira (06/12/2018) com Emílio, um moço que me viu com uma camisa africana (que ganhei do Lusitâneo, de Moçambique).

Ele estava me falando de alguns eventos que iam acontecer em Porto Alegre nessa temática e eu voando para o que ele estava me dizendo. Ele me perguntou: você atua em algum coletivo, grupo de pesquisa, etc (dentro dessa temática)? E eu olhei bem vidrada para ele, refletindo sobre aquela pergunta que ele fez, e respondi que não. De fato não participo. Tenho consciência das coisas que acontecem no nosso mundo porque eu também passo por isso, mas por alguns (pequenos) privilégios que ainda tenho com certeza as coisas que eu passo são diferentes do que outras pessoas negras passam. E eu me senti estranha, porque eu já tinha consciência que eu não me envolvia, mas isso ficou estampado na minha cara e mente. E me incomodou.

E desde lá eu comecei a pensar em alguma forma de me envolver mais nesse mundo, o qual eu faço parte, mas não entrei de cabeça nele. E desde que tive o insight de querer trabalhar com educação isso é para um próximo post que tenho a vontade de buscar mais conhecimento sobre outras temáticas além da minha e me envolver mesmo com ações presenciais e afins. Pensando nisso, para a minha participação do dia 11/12 no evento, comecei a ler livros e artigos pertinentes à temática. E sabe o que aconteceu?

Tô amando. To realmente amando expandir minha percepção ao lado de outras mulheres negras (atualmente estou lendo O que é lugar de fala?, da Djamila Ribeiro) e saber que, de fato, não estou sozinha nessa luta. Ainda me encantou mais que, como pesquisadora negra, vou estar representando o meu trabalho, ou seja, de pesquisadora negra que estuda África. E escolhi estudar África de coração, foi um chamado. E estou diminuindo meu medo, por meio da leitura, de participar deste evento maravilhoso que só vai me fazer crescer mais ainda!

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