[Literatura] Sobre o livro Tornar-se Negro

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Hoje eu vou falar de um livro que me prendeu a atenção desde o início. O devorei sem pena, li tão rápido que, para processar todas as histórias, comentários, ainda acho que terei que fazer uma nova leitura.

“Neste trabalho, a unidade está representada por dez histórias-de-vida de negros que compartilham o fato de estarem vivendo um processo de ascensão social numa sociedade multirracial, racista e de hegemonia branca que, paradoxalmente, veicula a ideologia de democracia racial, em contradição com a existência de práticas discricionárias racistas” (SOUZA, 1983, p. 70).

É difícil não se identificar com as histórias representadas no livro, histórias essas em fragmentos, baseadas em depoimentos reais, apenas com os nomes modificados. O interessante é que a autora escolhe uma história em especial para narrar ela completa. E o resultado é sensacional, impactante. Eu simplesmente ainda passo alguns momentos pensando na história…às vezes me vem a mente como reproduzimos certos padrões de comportamento inconscientemente, condicionados pelo racismo estrutural impregnado em nossa sociedade.

A explicação já quase no final do livro sobre o porquê de “tornar-se negro” é sensacional! É tomar consciência do processo ideológico sofrido na sociedade que foi descrita na citação anterior e “criar uma nova consciência que reassegure o respeito às diferenças e que reafirme uma dignidade alheia a qualquer nível de exploração” (SOUZA, 1983, p. 77).

“Assim, ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar-se negro” (SOUZA, 1983, p.77).

Esse livro foi indicado por um amigo e eu fiquei muito feliz em aceitar o desafio de lê-lo. Contribuiu e muito para a minha percepção enquanto negra e acadêmica. Enquanto pessoa. Enquanto mulher. Sem mais delongas, isso foi um sneak peak (pedacinho) do livro para provocar vocês a buscar o livro e ler. VALE A PENA!

[Literatura] “Eu não sei ainda o que é ser negra”: substratos de um convite 2

Quando me convidaram para fazer uma fala na Mostra de Cinemas Africanos eu tive medo por não saber muito do debate sobre a temática (representatividade da mulher negra) na academia. Fui procurar livros para me informar.

Descobri um mundo o qual não entendia o porquê que não fazia parte antes. A experiência de escutar mulheres negras em diversos meios: pesquisa, livros, música é fantástica! E eu não tinha me dado conta que eu não fazia isso, mas quando eu comecei, eu simplesmente-automaticamente-instantaneamente me viciei. É lindo ver suas irmãs representando tudo aquilo e mais ainda do que você sente, esperava.

A questão é que essas condições sociais dificultam a visibilidade e a legitimidade dessas produções. Uma simples pergunta que nos ajuda a refletir é: quantas autoras e autores negros o leitor e a leitora, que cursaram a faculdade, leram ou tiveram acesso durante o período da graduação? Quantas professoras ou professores negros tiveram? Quantos jornalistas negros, de ambos os sexos, existem nas principais redações do país ou até mesmo nas mídias ditas alternativas?

Djamila Ribeiro, 2017

Pensando nisso, esse post tem como objetivo trazer algumas sugestões de livros. Como não li muitos, vou colocar dois livros que eu li e gostei muito, expandiram minha percepção em relação ao tema:

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1. O que é lugar de fala?, de Djamila Ribeiro

Eu li esse livro antes de apresentar na Mostra. Foi muito bom, porque eu ganhei segurança sobre o que eu já pensava em relação à lugar de fala e outras questões sobre o racismo estrutural (até afirmar que sim, o racismo que vivemos é estrutural).

Esse livro foi interessante para descobrir outras referências acadêmicas (e também não acadêmicas) sobre o feminismo negro e afins. Super vale a pena de ser lido!

Resultado de imagem para angela davies a liberdade é2. A Liberdade é uma Luta Constante, de Angela Davies

Um livro que me fez perceber que as lutas são mais do que as lutas fechadas em si, movimentos isolados. A luta na Palestina tem sim relação com a luta contra o racismo nos Estados Unidos, etc.

Achei um livro bem esclarecedor nesse aspecto e também interessante para ver as outras referências (de livros, documentários) para complementar a leitura particular.

Bem, esses são os livros que eu li ainda em 2018 e assim que eu terminar de ler outros na mesma temática eu posto aqui, ok? Ressaltando, para aqueles que perguntarem o que isso tem a ver com o My Ruanda, eu digo que tem a ver por conta do nosso passado colonial, em que os escravos entraram como mão-de-obra barata na esteira do desenvolvimento do capitalismo, e que, mesmo com tanto tempo, ainda sim é visto em termos societários os impactos estruturais do racismo cultivado séculos atrás.

Então sim, racismo tem a ver com o My Ruanda e vamos ver essa temática em outros posts.

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Sobre buscar livros de autores africanos no sebo

Um dos meus sonhos era ter uma biblioteca em casa. Depois de montar uma mini-biblioteca, agora estou focando nos livros relacionados à temática africana.

No post anterior eu contei que eu comprei o livro de Pepetela (As Aventuras de Ngunga) no sebo. E foi uma experiência bacana porque fui em um sebo, por acaso, e vi na vitrine o livro do Mia Couto – acho que um dos mais conhecidos autores africanos no Brasil, com a disponibilidade de livros seja em lojas, como em sebos. E outros autores africanos, como achá-los?

Depois de comprar no sebo. Dezembro, 2018.

Nesse sebo, fui recebida por um moço que pacientemente olhou a lista de 10 autores africanos que você precisa conhecer e foi olhando na loja para ver se encontrava algum deles na prateleira. Não conseguiu encontrar nada mais além do livro que estava na vitrine. Fiquei pensativa. Por que é tão difícil encontrar livros de autores africanos, sendo que muitos deles escrevem em português (Pepetela, Mia, Agualusa)?

Fui em um outro sebo do lado e lá já encontrei mais livros além do Pepetela que comprei: de J. M. Coetzee (Juventude; eu não conhecia esse autor) e o de Ishmael Beah (O Brilho do Amanhã; já conhecia o autor). Essa busca só me deixou mais animada ainda para fazer um tour por sebos e incentivar também que estas pessoas vejam que há uma procura por livros de autores africanos e/ou com temáticas africanas.

Não sei se anteriormente já existia uma procura, mas eu vou fazer minha parte. Porque eu quero que outras pessoas tenham contato com essa literatura. Ainda tenho os livros de Mukasonga (Nossa Senhora do Nilo e A Mulher de Pés Descalços) que comprei na Feira do Livro de Porto Alegre esse vai ser o tema – retroativo, hahaha – do próximo post e outros mais na minha mini-biblioteca de livros africanos.

E você, qual livro está lendo?

Go Rwanda, My Ruanda cropped-c3adndice.png

[Literatura] As Aventuras de Ngunga – Pepetela

Este ano eu aproveitei para comprar e ler livros africanos. O livro de Pepetela foi um deles.

As aventuras de Ngunga
Capa do livro

Este livro eu tive o prazer de encontrar em um sebo. Da década de 1980, essa edição tem letras grandes (adoro), confortável para ler e aquela pegada de livro antigo – óbvio que eu comprei na hora.

Um livro simples, com uma pequena história do pequeno Ngunga, com apenas 13 anos, que desbrava Angola no período das lutas de libertação. O livro é interessante por retratar um contexto histórico e, mais especificamente, a relação dos locais com os colonialistas. Achei fantástica as simples lições de vida que o livro traz!

Pepetela (sendo este o nome de guerra de Artur Pestana), era combatente na Frente Leste de Angola, escrevendo o livro na época que estava em combate. A linguagem do livro é simples e acessível, com um glossário no final do livro (ainda assim tinham algumas palavras que não tinha ideia do que eram), tornando a leitura prazerosa.

Não será numa parte desconhecida de ti próprio que se esconde modestamente o pequeno Ngunga?

Ou talvez Ngunga tivesse um poder misterioso e esteja agora em todos nós, nós os que recusamos viver no arame farpado, nós os que recusamos o mundo dos patrões e dos criados, nós os que queremos o mel para todos

Se Ngunga está em todos nós, que esperamos então para o fazer crescer?

(PEPETELA, 1987)

Por eu estar estudando a formação do Estado na África, ler este livro me ajudou a ilustrar as passagens teóricas que eu tinha em mente com uma retratação histórica do que foi o período colonial na prática. Simplesmente vale a pena ler este livro! Eu não vou nem contar muito sobre ele porque eu não quero dar spoiler, então fica a dica para vocês lerem!

Já tenho outro livro do Pepetela para ler – Mayombe – mas esperarei o ano virar para me dedicar às leituras africanas. E você, o que está lendo agora?

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