[Literatura] “Eu não sei ainda o que é ser negra”: substratos de um convite 2

Quando me convidaram para fazer uma fala na Mostra de Cinemas Africanos eu tive medo por não saber muito do debate sobre a temática (representatividade da mulher negra) na academia. Fui procurar livros para me informar.

Descobri um mundo o qual não entendia o porquê que não fazia parte antes. A experiência de escutar mulheres negras em diversos meios: pesquisa, livros, música é fantástica! E eu não tinha me dado conta que eu não fazia isso, mas quando eu comecei, eu simplesmente-automaticamente-instantaneamente me viciei. É lindo ver suas irmãs representando tudo aquilo e mais ainda do que você sente, esperava.

A questão é que essas condições sociais dificultam a visibilidade e a legitimidade dessas produções. Uma simples pergunta que nos ajuda a refletir é: quantas autoras e autores negros o leitor e a leitora, que cursaram a faculdade, leram ou tiveram acesso durante o período da graduação? Quantas professoras ou professores negros tiveram? Quantos jornalistas negros, de ambos os sexos, existem nas principais redações do país ou até mesmo nas mídias ditas alternativas?

Djamila Ribeiro, 2017

Pensando nisso, esse post tem como objetivo trazer algumas sugestões de livros. Como não li muitos, vou colocar dois livros que eu li e gostei muito, expandiram minha percepção em relação ao tema:

Resultado de imagem para O que é lugar de fala?

1. O que é lugar de fala?, de Djamila Ribeiro

Eu li esse livro antes de apresentar na Mostra. Foi muito bom, porque eu ganhei segurança sobre o que eu já pensava em relação à lugar de fala e outras questões sobre o racismo estrutural (até afirmar que sim, o racismo que vivemos é estrutural).

Esse livro foi interessante para descobrir outras referências acadêmicas (e também não acadêmicas) sobre o feminismo negro e afins. Super vale a pena de ser lido!

Resultado de imagem para angela davies a liberdade é2. A Liberdade é uma Luta Constante, de Angela Davies

Um livro que me fez perceber que as lutas são mais do que as lutas fechadas em si, movimentos isolados. A luta na Palestina tem sim relação com a luta contra o racismo nos Estados Unidos, etc.

Achei um livro bem esclarecedor nesse aspecto e também interessante para ver as outras referências (de livros, documentários) para complementar a leitura particular.

Bem, esses são os livros que eu li ainda em 2018 e assim que eu terminar de ler outros na mesma temática eu posto aqui, ok? Ressaltando, para aqueles que perguntarem o que isso tem a ver com o My Ruanda, eu digo que tem a ver por conta do nosso passado colonial, em que os escravos entraram como mão-de-obra barata na esteira do desenvolvimento do capitalismo, e que, mesmo com tanto tempo, ainda sim é visto em termos societários os impactos estruturais do racismo cultivado séculos atrás.

Então sim, racismo tem a ver com o My Ruanda e vamos ver essa temática em outros posts.

Go Rwanda, My Ruanda cropped-c3adndice.png

“Eu não sei ainda o que é ser negra”: substratos de um convite 1

“Eu não sei ainda o que é ser negra” – foi uma frase que eu usei em uma conversa no WhatsApp.

Recebi um convite para participar de um bate-papo pós-filme na Mostra de Cinemas Africanos, no Capítulo, em Porto Alegre (RS – Brasil). Fiquei muito feliz, especialmente por ir falar sobre representatividade da mulher negra na academia (o tema geral é sobre “Representatividade feminina negra: desdobramentos entre África e Brasil”).

Mostra de Cinemas Africanos

Sempre conversei com meus amigos e afins sobre a questão da representatividade na academia. Algumas vezes isso me incomoda profundamente a ponto de me deixar sem graça e sem jeito em algumas situações, por ser “a diferentona”; outras vezes eu sinto ainda o incômodo, mas ajo como a pessoa representando por outras pessoas – aquele papel que eu gostaria que alguém tivesse feito por mim (que responsa, ein Camila? Rs! Brincadeiras a parte, SIM, é uma responsa e que pode nos deixar doentes por exigir tanto de nós, por sermos diferentonas sempre, por isso que é bom sempre refletirmos sobre o nosso papel em ocupar espaços e estarmos conscientes disso).

Mas um medo bateu em relação a minha participação. E se eu só contar minha experiência e não ser suficiente? E se eu não souber questões acadêmicas sobre negritude, sobre lugar de fala, feminismo negro (Djamila Ribeiro, Angela Davies) e outras questões que estão sendo discutidas e eu vivo bitolada no meu mundo acadêmico do outro lado de cá? E se eu não sei ainda o que é ser negra?

Essa pergunta, depois que eu falei ‘alto’ ou seja, enviei a mensagem ficou latejando na minha cabeça. E eu decidi ler mais sobre questões que me tocam, porque eu faço desse recorte social, mas não me envolvo. Fazendo uma digressão, percebi que não me envolvo em questões de negritude quando estava conversando na quinta-feira (06/12/2018) com Emílio, um moço que me viu com uma camisa africana (que ganhei do Lusitâneo, de Moçambique).

Ele estava me falando de alguns eventos que iam acontecer em Porto Alegre nessa temática e eu voando para o que ele estava me dizendo. Ele me perguntou: você atua em algum coletivo, grupo de pesquisa, etc (dentro dessa temática)? E eu olhei bem vidrada para ele, refletindo sobre aquela pergunta que ele fez, e respondi que não. De fato não participo. Tenho consciência das coisas que acontecem no nosso mundo porque eu também passo por isso, mas por alguns (pequenos) privilégios que ainda tenho com certeza as coisas que eu passo são diferentes do que outras pessoas negras passam. E eu me senti estranha, porque eu já tinha consciência que eu não me envolvia, mas isso ficou estampado na minha cara e mente. E me incomodou.

E desde lá eu comecei a pensar em alguma forma de me envolver mais nesse mundo, o qual eu faço parte, mas não entrei de cabeça nele. E desde que tive o insight de querer trabalhar com educação isso é para um próximo post que tenho a vontade de buscar mais conhecimento sobre outras temáticas além da minha e me envolver mesmo com ações presenciais e afins. Pensando nisso, para a minha participação do dia 11/12 no evento, comecei a ler livros e artigos pertinentes à temática. E sabe o que aconteceu?

Tô amando. To realmente amando expandir minha percepção ao lado de outras mulheres negras (atualmente estou lendo O que é lugar de fala?, da Djamila Ribeiro) e saber que, de fato, não estou sozinha nessa luta. Ainda me encantou mais que, como pesquisadora negra, vou estar representando o meu trabalho, ou seja, de pesquisadora negra que estuda África. E escolhi estudar África de coração, foi um chamado. E estou diminuindo meu medo, por meio da leitura, de participar deste evento maravilhoso que só vai me fazer crescer mais ainda!

cropped-c3adndice.png