[Documentário] Sobre o processo de assistir “Eu não sou seu negro”

Eu não ia assistir, estava relutante. Mas nunca me arrependo da decisão que tomei de entrar naquela sala e colocar minha bunda na cadeira para entender o desenrolar da luta de muitos negros no mundo por uma vida justa e digna.

Estava na faculdade esse dia. Lembro que fui lá para ir na biblioteca, outras coisas que não envolvia entrar em uma sala assistir um filme que me impactaria e muito. Fiquei sabendo que teria a exibição desse filme na sala Ferraz, a sala do nosso programa de pós-graduação. Como eu tinha falado no texto sobre o documentário de Maya Angelou, já tinha algum tempo que não assistia filmes, documentários com a temática do racismo.

Resultado de imagem para documentario sou negro I’m not your negro, nome original do documentário, como o de Maya Angelou, é riquíssimo em detalhes históricos, mostrando a participação dos processos de igualdade racial de Malcolm X, Martin Luther King e James Baldwin, mostrando a diferença de abordagem de cada um deles.

É interessante ver essa diferença de abordagem em prática e o próprio diálogo entre eles por uma mesma causa: direitos e respeito para o povo preto. É chocante ver a resposta da massa branca, priorizando, obviamente, sua dominação de classe e racial.

Para quem não conhece ainda essas figuras históricas, recomendo muito assistir esse documentário/filme segurando o coração, porque tem alguns momentos que partem o coração. É importante sabermos da história daqueles que vieram e lutaram por condições melhores das que temos hoje – e que ainda não é um trabalho acabado, cabe a nós continuarmos com a luta.

[Documentário] Sobre o processo de assistir “Maya Angelou e ainda resisto”

Eu ainda estou com lágrimas nos olhos. Vivia na minha bolha fantástica para não perceber um talento tão estonteante como o de Maya Angelou.

Acabei de assistir o documentário. Há algum tempo estava evitando assistir filmes/documentários/peças audiovisuais que envolvessem a temática de racismo. Minha última tentativa tinha sido a série do Netflix Cara Gente Branca – parei no quarto episódio, não aguentei. E olha que, para algumas pessoas, não tinha nada de brutal. Mas pra mim tinha: ver pedaços de mim em quase todos os personagens. Não estava preparada para isso.

Ontem sofri uma grande decepção. Na verdade, a ficha caiu de uma grande decepção com uma pessoa. Decidi voltar para mim mesma e para o meu processo de conhecimento, aproveitar esse momento de dor, de ressiginificações, para conectar com partes de mim que andavam adormecidas – estavam ali, mas eu não queria lidar. Estava inquieta, passei o dia todo pensando no que fazer para cheer me up e não vinha nada na mente. Livros, séries…tentei retomar Black Earth Rising, mas sem sucesso – ver essa série mexe muito comigo (sobre o genocídio em Ruanda).

Resolvi pedir sugestões de livros no Instagram. E eis que uma alma generosa, a Cá, me indica o livro Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, da Maya Angelou. E eis que relembro dela, já tinha pesquisado sobre os poemas dela, e já tinha me encantado. Já estando triste, decido me afundar por inteiro e penso: esse é o momento de retomar minhas raízes e assistir algo. Coloquei o nome dela na busca do Netflix e apareceu este documentário.

Resultado de imagem para maya angelou e ainda resisto  O documentário Maya Angelou e ainda resisto é uma obra riquíssima em detalhes históricos, havendo uma interseção entre histórias como as de Malcolm X, King e James Baldwin – e eu não sabia nada disso. foi um choque acompanhar a saga desta mulher guerreira que se infiltrou em tantos recintos para entender a sua história, o seu lugar de fala nesse processo.

Ainda me encantou mais ainda que ela foi para África entender mais ainda seu processo de vida, suas lutas – o que eu fiz e que ainda é o meu desejo de morar na África. Acompanhar o processo dela de ocupação de espaços que muitos diriam que não eram para negros foi um exemplo rico de superação, força e solidariedade com outros que estariam por vir.

Como no próprio documentário é dito, é lindo ver o sentimento de gratidão por todos os ancestrais que passaram por situações diferentes para estarmos onde estamos agora. E é o que eu sinto a cada vez que venço uma barreira imposta por mim, sei que a força vem além de mim, vem de muitas mulheres, especialmente da minha família, que já lutavam por mim.

Hoje eu escrevo esse texto emocionada considerando todas as situações de descaso, de dúvida, de humilhação que eu e outras pessoas já passaram, agradecendo por esses seres de luz fantásticos que me protegeram e me deram condições melhores nos dias atuais. Cabe a mim continuar o trabalho deles. Obrigada!

Obrigada, Maya Angelou! 

PS: ASSISTAM!!

[Literatura] Sobre o livro Tornar-se Negro

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Hoje eu vou falar de um livro que me prendeu a atenção desde o início. O devorei sem pena, li tão rápido que, para processar todas as histórias, comentários, ainda acho que terei que fazer uma nova leitura.

“Neste trabalho, a unidade está representada por dez histórias-de-vida de negros que compartilham o fato de estarem vivendo um processo de ascensão social numa sociedade multirracial, racista e de hegemonia branca que, paradoxalmente, veicula a ideologia de democracia racial, em contradição com a existência de práticas discricionárias racistas” (SOUZA, 1983, p. 70).

É difícil não se identificar com as histórias representadas no livro, histórias essas em fragmentos, baseadas em depoimentos reais, apenas com os nomes modificados. O interessante é que a autora escolhe uma história em especial para narrar ela completa. E o resultado é sensacional, impactante. Eu simplesmente ainda passo alguns momentos pensando na história…às vezes me vem a mente como reproduzimos certos padrões de comportamento inconscientemente, condicionados pelo racismo estrutural impregnado em nossa sociedade.

A explicação já quase no final do livro sobre o porquê de “tornar-se negro” é sensacional! É tomar consciência do processo ideológico sofrido na sociedade que foi descrita na citação anterior e “criar uma nova consciência que reassegure o respeito às diferenças e que reafirme uma dignidade alheia a qualquer nível de exploração” (SOUZA, 1983, p. 77).

“Assim, ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar-se negro” (SOUZA, 1983, p.77).

Esse livro foi indicado por um amigo e eu fiquei muito feliz em aceitar o desafio de lê-lo. Contribuiu e muito para a minha percepção enquanto negra e acadêmica. Enquanto pessoa. Enquanto mulher. Sem mais delongas, isso foi um sneak peak (pedacinho) do livro para provocar vocês a buscar o livro e ler. VALE A PENA!

[Literatura] “Eu não sei ainda o que é ser negra”: substratos de um convite 2

Quando me convidaram para fazer uma fala na Mostra de Cinemas Africanos eu tive medo por não saber muito do debate sobre a temática (representatividade da mulher negra) na academia. Fui procurar livros para me informar.

Descobri um mundo o qual não entendia o porquê que não fazia parte antes. A experiência de escutar mulheres negras em diversos meios: pesquisa, livros, música é fantástica! E eu não tinha me dado conta que eu não fazia isso, mas quando eu comecei, eu simplesmente-automaticamente-instantaneamente me viciei. É lindo ver suas irmãs representando tudo aquilo e mais ainda do que você sente, esperava.

A questão é que essas condições sociais dificultam a visibilidade e a legitimidade dessas produções. Uma simples pergunta que nos ajuda a refletir é: quantas autoras e autores negros o leitor e a leitora, que cursaram a faculdade, leram ou tiveram acesso durante o período da graduação? Quantas professoras ou professores negros tiveram? Quantos jornalistas negros, de ambos os sexos, existem nas principais redações do país ou até mesmo nas mídias ditas alternativas?

Djamila Ribeiro, 2017

Pensando nisso, esse post tem como objetivo trazer algumas sugestões de livros. Como não li muitos, vou colocar dois livros que eu li e gostei muito, expandiram minha percepção em relação ao tema:

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1. O que é lugar de fala?, de Djamila Ribeiro

Eu li esse livro antes de apresentar na Mostra. Foi muito bom, porque eu ganhei segurança sobre o que eu já pensava em relação à lugar de fala e outras questões sobre o racismo estrutural (até afirmar que sim, o racismo que vivemos é estrutural).

Esse livro foi interessante para descobrir outras referências acadêmicas (e também não acadêmicas) sobre o feminismo negro e afins. Super vale a pena de ser lido!

Resultado de imagem para angela davies a liberdade é2. A Liberdade é uma Luta Constante, de Angela Davies

Um livro que me fez perceber que as lutas são mais do que as lutas fechadas em si, movimentos isolados. A luta na Palestina tem sim relação com a luta contra o racismo nos Estados Unidos, etc.

Achei um livro bem esclarecedor nesse aspecto e também interessante para ver as outras referências (de livros, documentários) para complementar a leitura particular.

Bem, esses são os livros que eu li ainda em 2018 e assim que eu terminar de ler outros na mesma temática eu posto aqui, ok? Ressaltando, para aqueles que perguntarem o que isso tem a ver com o My Ruanda, eu digo que tem a ver por conta do nosso passado colonial, em que os escravos entraram como mão-de-obra barata na esteira do desenvolvimento do capitalismo, e que, mesmo com tanto tempo, ainda sim é visto em termos societários os impactos estruturais do racismo cultivado séculos atrás.

Então sim, racismo tem a ver com o My Ruanda e vamos ver essa temática em outros posts.

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