A Mulher de Pés Descalços, de Scholastique Mukasonga

“Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras – palavras de uma língua que você não conhecia – para realizar aquilo que você me pediu” (MUKASONGA, 2017, p. 7).

Gente…que livro. QUE LIVRO! Sério, que livro. Eu não sei nem por onde começar. Dois dias atrás eu o peguei, como quem não quer nada, para dar uma folheada, mas não consegui, comecei a ler. Como estava pensando em diversificar minhas referências para a tese, pensei em livros autobiográficos, documentários, filmes que retratassem a história de Ruanda. E pois bem, chegou a hora dA mulher de Pés Descalços.

O livro me chamou a atenção porque pelo início eu pensava que ia ser histórias do horror de 1994, então toda vez que começava a ler as duas primeiras páginas, eu não aguentava ir para os outros capítulos. Eu não queria ler mais sobre o genocídio – especialmente quando a história é contada na primeira pessoa. É muito forte você colocar rosto nas mais de 800.000 pessoas que morreram, é muito forte você saber da história delas que foram sucumbidas pelo genocídio.

Memorial do Genocídio em Kigali, 2015. Foto: acervo pessoal.

Então dessa vez eu fiz um pacto comigo mesma e segui adiante. Comecei a ver que o livro não era o que eu pensava, e sim uma narrativa que contemplava histórias cotidianas de Mukasonga e, especialmente, sua mãe, Stefania, que é a personagem principal. Mukasonga escreve esse livro em memória da mãe e de muitas “Mães-coragem” que foram estupradas, tiveram filhos dos seus estupradores e seguiram adiante, com a ajuda de outras mulheres.

É muito lindo ver essa rede de mulheres no livro, uma ajudando a outra, acolhendo aquelas que passaram por tamanho trauma. O estupro era instrumentalizado pelos hutus como uma arma de guerra. Como a maior parte daqueles que usavam dessa prática tinha HIV, eles faziam com a intenção de infectar as mulheres tutsis. É muito triste ver a capacidade dos seres humanos de fazer coisas tão abomináveis, coisas tão desumanas mesmo.

A escrita é tão boa, fluida, que você acaba terminando o livro rapidinho, sem se cansar. Eu adorei que a autora traz muitas palavras em kinyarwanda (a língua nacional de Ruanda), o que nos aproxima mais ainda de sua cultura, realidade. tem umas passagens tão fofas, com tantos significados. Se eu tivesse ido para Ruanda e tivesse lido esse livro, olharia para a realidade ruandesa de outra forma, sem dúvidas.

Livros de Scholastique Mukasonga. Foto: acervo pessoal.

Um país rico em tradições, de simplicidade, de significados. Isso que o livro representa. Também é possível ver que, mesmo o país sendo pequeno, as práticas/costumes variam em diversas partes de Ruanda, sendo Kigali (a capital) um mundo, a representação do desenvolvimento.

Mesmo estudando Ruanda desde 2012, sinto que estou mergulhando bem mais profundo na história esse ano. Acho que isso se deve ao tipo de olhar que estou escolhendo para perceber/fazer as conexões com os diferentes aspectos da realidade ruandesa. Me sinto grata por estar tendo mais essa oportunidade para fazer isso. E quero voltar. Quero voltar para poder aproveitar mais ainda as conexões, os laços locais em Ruanda!

Leiam, leiam esse livro! Te juro que você não vai se arrepender!

MUKASONGA, Scholastique. A mulher de pés descalços. São Paulo: Editora Nós, 2017.

[Live Instagram] Sobre falar com uma ruandesa no Brasil

E nesses encontros e reencontros da vida, eis que encontramos uma ruandesa vivendo no Brasil!

Axana Uwimana
Axana Uwimana | Foto: acervo pessoal

A nossa entrevistada se chama Axana Uwimana, 26 anos, formada em Serviço Social pela Universidade Católica Dom Bosco (MS) e atualmente mora em Campo Grande.  Gosta de bastante cultura, de arte, música, teatro e dança populares.

Como vocês vão ouvir no vídeo, a Axana é nascida em Ruanda, mas não teve contato com a guerra. Suas palavras transmitem a sobrevivência de sua família e como ele se adaptam no contexto brasileiro. Então, o intuito da entrevista é justamente saber um pouquinho mais da história dela, como se inseriu na sociedade brasileira, curiosidades da ida para Ruanda e seus sentimentos em relação à Brasil e África.

Tenho que confessar que pra mim foi um encontro virtual lindo, porque ela tem uma energia incrível e super aberta para conversar de qualquer tema com as pessoas. Realmente eu fico feliz de ter concretizado essa entrevista com ela e de poder compartilhar com vocês em primeira mão!

Para quem não teve a oportunidade de assistir ao vivo a entrevista concedida pela Axana Uwimana no Instagram do My Ruanda, gravamos o áudio/vídeo da nossa conversa e disponibilizamos por aqui.

Obs: A partir do minuto 3:08 que temos áudio, desculpa pela falha técnica!

Se alguém quer fazer alguma pergunta para ela, deixa nos comentários que a gente te retorna!

Go Rwanda, My Ruanda! ❤

4 anos de My Ruanda e 3 anos da volta de Ruanda

Parece que não, mas o tempo passa rápido! Eu ainda lembro quando eu estava planejando criar o blog do My Ruanda, em dezembro de 2014, de pensar em fazer a campanha de arrecadação e de falar para o mundo que eu gostaria de ir para Ruanda.

Tudo aconteceu tão rápido que eu ainda tenho a impressão que eu não aproveitei o suficiente, que tinha tanta coisa para ver, mas não deu tempo. Que ficar apenas um mês foi um erro, e sim deveria ter ficado no mínimo dois.

Mas é isso, apesar de todos os deverias, sobra demais vontade de voltar e fazer tudo que eu não fiz, redescobrir tudo que eu fiz, pesquisar, estudar, rever meus amigos, viver novas experiências. E isso que move meu ano de 2019.

My Ruanda Brasil wishes you a Happy New Year!

Eu estou muito animada para tocar o My Ruanda esse ano! E você, quais são seus planos, metas, sonhos? 🙂

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